Vinho e cinema: veja filmes que dão destaque à nossa amada bebida

Produções artísticas colocam o vinho em diversos patamares: de protagonista a figurante

atualizado 10/07/2019 13:18

Se uma pedra que rola é um tipo de roda, um cacho de uva caído, potencialmente torna-se um tipo de vinho. Podemos, então, imaginar que uma figura rupestre desenhada na parede de uma caverna por um dos nossos ancestrais cro-magnon, contando a história de uma caçada, iluminada pela luz de fogueiras, já era uma espécie de cinema.

No sudoeste da França, a Gruta de Lascaux, a Capela Sistina da arte rupestre, tem a idade de suas pinturas calculada, por datação com carbono-14, em 15 mil a.C. Sendo que na região, onde até hoje crescem videiras selvagens, foram encontradas grandes quantidades de sementes de uva fossilizadas – o que sugere que a produção de vinho também era conhecida.

Portanto, vinho e cinema acumulam uma história de 17 mil anos!

A dobradinha de jantar com filme é sempre sedutora. A combinação dessa refeição com vinho também é sempre uma grande pedida. Se a dois já é bom, os três juntos é gostoso demais.

Mas, além do vinho após o filme, é possível também encontrar a bebida desempenhando um papel nas telas, sendo utilizada como reforço de uma cena, como coadjuvante e, até, como ator principal.

Mundo da ficção

Dentro da chamada sétima arte tudo tem significado e sentido. A linguagem não verbal se vale das informações visuais, que são utilizadas como símbolo, metáfora ou recursos da história. Sua estética busca provocar sensações específicas. O espectador ao desvendar e identificar a imagem tem o prazer do reconhecimento.

Para vivenciarmos um filme temos de adotar uma atitude intelectual de “suspensão da realidade” (diegese). Temos que acreditar que aquela outra realidade, definida e representada pelas imagens e pela narração, é um mundo tido como existente.

O cinema é carregado de estereótipos, muitos ligados à bebida, mas o fracassado, o deprimido ou o alcoólatra das telas não bebe vinho.

O estereótipo, o lugar-comum, é necessário, imprescindível para se comunicar com o espectador, se a interpretação das cenas não for entendida e compartilhada pelo público, não se transmitirá a mensagem.

O champanhe aparece como tradução de sensualidade, alegria e riqueza, sempre presente nas festas e celebrações.

Amor e sedução

O vinho é mais relacionado, de alguma forma, a amor, paixão e sedução. Aparece nas vitórias e some nas derrotas. Normalmente harmoniza com as estações do ano, tintos no inverno e brancos no verão.

Quando o vinho se relaciona à solidão, é por que o personagem passa por uma experiência única e íntima.

Ao personagem que bebe vinho, é adicionada uma avaliação de sofisticação. Essas interpretações da linguagem simbólica das imagens nos auxiliam a dar sentido à estrutura narrativa que presenciamos na tela, suas ideias e emoções, e, principalmente, às complexas subjetividades que não podem ficar sendo explicadas a cada cena.

O cinema não reproduz a realidade, mas reflete a sociedade de sua época, ao mesmo tempo que influencia novos comportamentos, hábitos e gostos. Portanto os filmes, ao incluírem os vinhos nesta simbologia de imagens, os tornam mais presentes na sociedade e acabam por conferir a uma garrafa da bebida, ou a uma taça de espumante, um significado que representa algo distinto de si mesmo. Vira uma alegoria; uma metáfora; um discurso sem a necessidade de palavras; uma imagem no lugar de outra (metonímia).

Saindo das telas para a vida real, vários personagens cinematográficos também transitam no mundo do vinho. O ator francês, incrivelmente naturalizado russo, Gérard Depardieu possui várias vinícolas, na França, Espanha, Argentina e, até, no Marrocos, produzindo bebidas com seu nome. Antonio Banderas, o Zorro, produz o Anta Banderas, na região de Ribeira Del Duero da sua Espanha natal. Brad Pitt e Angelina Jolie, mesmo separados, continuam fazendo juntos o Miraval Rosé. Um veterano nessa área é Francis Ford Coppola, diretor da trilogia O Poderoso Chefão, que possui diversas vinícolas nos Estados Unidos.

Na França, na cidade medieval de Carcassone, ocorre o encontro real entre o mundo do cinema e o do vinho. O enovideo, o mais antigo festival internacional dedicado à melhoria da vinha e do vinho por meio de documentários, filmes e fotografias. Mais de 1.000 filmes já foram apresentados nestes mais de 20 anos da sua existência, demonstrando que é possível unir a sétima arte ao vinho.

Filme e cinema

Relacionar os filmes em que o vinho se destaca e tem um papel relevante, muitas vezes apenas em uma cena, seria uma tarefa infinda. Mas como falar de cinema sem citar alguns filmes?

Nos diversos 007, enquanto o mundo ainda não está a salvo, Bond, James Bond, pede o famoso Martini, mas quando a Bond girl é chamada para comemorar a derrota do vilão, o champanhe Don Perignon é a bebida. Mas, o agente à serviço de Sua Majestade, com licença para matar, já pediu o vinho de sobremesa Chateau d’Yquem em mais de um filme.

No filme nacional O Estômago, de Marcos Jorge, o vinho aparece em duas cenas marcantes, a primeira na apresentação que o personagem Alecrim faz enquanto abre uma garrafa para acompanhar o banquete servido a um chefão recém-chegado a cadeia. E ele ensina como se faz o vinho: “Para fazê-lo, o sujeito maçaroca a uva, bem maçarocadinha mesmo, e deixa fermentando. Faz o gás e aí pega a baba e joga nuns tonel de madeira de fazer pinga”. Se esforça para tornar a refeição em um banquete, sendo o vinho o símbolo desse refinamento. Mas pisa nos bagos de uva ao falar no aroma de cachorro molhado. O chefão ordena: “Jogue esta merda na privada e traz uma cerveja!”.

Na cena em que descreve seu crime, Alecrim, que ainda era conhecido como Nonato, descobre que sua mulher o trai com o seu patrão e mentor. A maneira que encontra para mostrar desprezo pelo homem é buscar a garrafa de Sassicaia, grande vinho italiano, guardado com zelo pelo patrão, e a bebe toda no gargalo, para em seguida consumar sua vingança.

Como falar de vinho em filmes e não lembrar da Festa de Babette. Numa vila de pescadores na Dinamarca, uma ex-chef de um famoso restaurante francês trabalha como faxineira e cozinheira. Ao ganhar um prêmio da loteria resolve gastar tudo oferecendo um banquete aos habitantes da vila. Vinhos, hoje só de sonho, são servidos, com destaque para o champanhe Veuve-Cliquot 1860 e um Clos Vougeot 1845. Para finalizar, Cognac Vieux Marke Fine Champagne. Os participantes são transformados durante o banquete, tem seus horizontes ampliados. É uma fita sobre a generosidade e a grandeza de espírito.

Em Meia Noite em Paris, o diretor Woody Allen faz com que o personagem chato do filme demonstre ser um esnobe ao esbanjar conhecimento sobre vinho. Ele é o amigo da noiva do escritor viajante do tempo e, para provocá-lo, cita uma frase sobre o vinho e o amor, no seu sentido mais físico: “O vinho provoca o desejo, mas impede o desempenho”. Na versão dublada a que fui obrigado a assistir, não era citado o autor da frase, mas ela é bem conhecida e pertence a Shakespeare, que em Macbeth escreveu o seguinte diálogo entre os personagens Macduff e Porter:

– Macduf – Quais as três coisas que o beber especificamente provoca?
– Porter – “…nariz vermelho, sono e urina. Luxúria, senhor, ele provoca e não provoca; provoca o desejo, mas impede o desempenho.”

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Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado
Champanhe

Uma linda mulher com champanhe fica mais linda ainda. Em O Pecado Mora ao Lado, aquele filme da cena em que um jato de ar do respiradouro do metrô levanta o vestido da Marilyn Monroe, há uma cena que enquanto seu vizinho (Tom Ewell) toca Rachmaninoff ao piano, ela, com muita classe, molha batatas fritas no champanhe. A paixão está no ar! Já em Uma Linda Mulher, Julia Roberts toma a bebida com morangos para simbolizar a possibilidade de uma nova vida com o milionário interpretado por Richard Gere. Para facilitar, pode-se colocar o morango dentro da taça, assim ao menos uma das mãos fica livre, o que é muito útil durante o namoro.

Poderia citar mais diversos filmes em que em algum momento o vinho tem um desempenho relevante, como: Casablanca, Conto de Outono, Gilda, Julie e Julia, O Jantar (Ettore Scola), O Segredo de Santa Vitoria, Ratatouille, O Silêncio dos Inocentes, Sob o Sol da Toscana e diversos outros – mas aí já estaria escrevendo um livro.

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Mas não gostaria de encerrar sem falar rapidamente de três filmes com características diversas e  que, para mim, têm grande significado. Primeiro, O Julgamento de Paris, que conta a história real da degustação às cegas, realizada nos arredores de Paris, em 1976, quando os vinhos californianos, até então praticamente desconhecidos, obtiveram notas superiores a clássicos franceses. A história é boa e verdadeira. Elevou os vinhos norte-americanos a um novo patamar. Mas, no filme, o evento é apresentado como a vitória do “caipira” sobre o “janota”. Cansa ver esse desdenhar da elegância inglesa e francesa, apesar babarem pela aprovação deles aos seus vinhos.

O excelente documentário Mondovino, do diretor e sommelier francês Jonathan Nossiter, radicado no Brasil, narra o que aparenta ser o grande embate entre a tradição e os novos métodos de produção de vinho, mas, na verdade, é uma defesa da qualidade e da individualidade em oposição à massificação e ao lucro fácil, com prejuízo para os consumidores.

Por último, Sideways (Entre Umas e Outras), um road-movie ou um vinícola-filme, entre garrafas, degustações e refeições, o vinho, nessa película, aparece em quase todas as suas possibilidades, tanto como símbolo, metáfora ou recurso da história. Miles, interpretado por Paul Giamatti, talvez em seu melhor trabalho, detona com a uva Merlot e descreve sua paixão pela Pinot Noir, “de difícil cultivo e sensível”. Na verdade, falava dele mesmo. O público americano, que também é sensível, reagiu à metáfora embutida na história e deixou de consumir o Merlot, multiplicando a venda do Pinot Noir.

Não se lembra desses detalhes? Abra uma garrafa de vinho e volte a assistir aos filmes novamente.

Vinho é um dos grandes prazeres da vida! Junto com comida, sexo e cinema. Não necessariamente nessa ordem.

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SOBRE O AUTOR
Sérgio Pires

Iniciou sua trajetória como enófilo na década de 1970. No final dos anos 1980, passou a estudar sistematicamente o tema e a realizar viagens a vinícolas. Após encerrar a carreira bancária, formou-se sommelier profissional pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-DF/UPIS). Profissionalmente atua como consultor, palestrante, articulista e jurado em eventos de vinho. É diretor da ABS-DF e professor em todos os seus cursos.

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