Cachaça: saiba a história da bebida mais famosa do Brasil

Dia 13 de setembro, o tradicional destilado do país celebra sua data nacional

Vinicius Santa Rosa/MetrópolesVinicius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 10/09/2019 17:46

O cultivo da cana de açúcar iniciou-se logo no princípio da colonização da antiga Pindorama, que em princípio foi denominada Ilha de Vera Cruz, nome rapidamente corrigido para Terra de Vera Cruz, depois chamada de Terra de Santa Cruz (1501), Terra Papagalli (1502), Mundus Novus (1503), América (1507), Terra do Brasil (1507), Índia Ocidental (1578) e Brazil com “z” (século 19), antes de, finalmente, virar Brasil com “s”, a partir do século 20.

E nesta terra de diversas nações indígenas, o colonizador português e o escravo africano criaram a nossa bebida mais conhecida no mundo inteiro.

De quem é a primazia?

Em 1504, o fidalgo judeu português Fernão de Noronha, recebeu a ilha, que hoje leva o seu nome, para a exploração do pau brasil. Lá iniciou a primeira plantação de cana-de-açúcar no Brasil.
Documentos datados de 1526, encontrados em Lisboa, comprovam que o primeiro engenho de açúcar foi construído por Pero Capico em 1516, na Feitoria de Itamaracá, litoral pernambucano.

Nas cercanias de Porto Seguro (BA), pesquisadores da Universidade Federal da Bahia, encontraram ruínas de um engenho de açúcar, datadas de 1520.

Martim Afonso de Souza, líder da primeira expedição colonizadora do Brasil, fundou a Vila de São Vicente em 1532 e logo iniciou o cultivo da cana e a construção de engenhos de açúcar. Muitos historiadores defendem que ali se produziu açúcar pela primeira vez nestas terras do Novo Mundo.

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Cachaça é um patrimônio nacional

Não temos um registro preciso do local onde a primeira destilação da cachaça tenha sido iniciada, mas pode-se afirmar que foi em algum engenho do litoral, entre os anos de 1516 e 1532.

O Prof. Jairo Martins (O Cachacista) – autor do livro Cachaça, O Mais Brasileiro dos Prazeres – constata que a bebida foi o primeiro destilado da América Latina, antes mesmo do aparecimento do pisco peruano, da tequila mexicana e do rum caribenho.

Não tendo os fatos, publique-se a lenda! E diz a história que num engenho da Capitania de São Vicente, entre 1532 e 1548, os trabalhadores observaram a garapa azeda, conhecida como cagaça, que, ao relento em cochos de madeiras para os animais, vinda dos tachos de rapadura, fermentava e provavelmente dava um “barato” nos bois.

Como a destilação já era conhecida, foi rápido a cagaça se transformar em cachaça. Em outra versão, o álcool evaporado dos cochos se condensava no teto do engenho formando gotículas que quando caíam eram experimentadas pelos escravos, ganhando o nome de “pinga”. Nesta mesma situação, quando o líquido caía em algum ferimento, a sensação de ardor o fez ganhar a alcunha de “água ardente”.

Mas há quem acredite que o nome cachaça venha do hábito de se utilizar aguardente para amaciar a carne do porco, o cachaço, e da porca, a cachaça. Ainda há o termo castelhano cachaza, vinho  feito de borra de uva.

Escrita pelo português Sá de Miranda em meados do século 16, esta carta versificada ao seu amigo Antônio Pereira é a mais antiga menção conhecida à cachaça.

“Ali não mordia a graça
Eram iguais os juízes
Não vinha nada da praça
Ali, da vossa cachaça!
Ali, das vossas perdizes!”

Independentemente de qual seja a origem do nome, vamos agora “tomá uma lapada, para dilurir os bofes e moiá as palavras”. Em seguida, vamos falar mais um pouco da nossa bebida nacional.

“A cachaça alegra os tristes
Melhora quem está doente
Faz aleijado corrê
E cego vê de repente.”

História do país

A cachaça estima-se tenha mais de 2 mil sinônimos em seu patrimônio linguístico – um tema para outra coluna. A bebida já foi motivo de uma revolta, iniciada em 8 de novembro de 1660, no Rio de Janeiro.

A Revolta da Cachaça foi organizada pelos produtores de cana-de-açúcar devido às restrições econômicas impostas pela Corte. Em 13 de setembro de 1661, a Rainha de Portugal liberou a fabricação e venda da bebida no Brasil e, por essa razão, decretou-se em 2010 que esta seria a data do Dia Nacional da Cachaça.

A pinga ainda foi motivo de escândalo no governo, no século 19, quando o Subsídio Literário (o literário vem de litros), dinheiro arrecadado com o Imposto da Cachaça – criado no Rio de janeiro para a construção do Aqueduto, hoje os Arcos da Lapa – foi roubado. Hoje, no mesmo Rio de Janeiro, o destilado virou Patrimônio Histórico Cultural do estado.

A primeira é a do Santo

Mas desde quando santo gosta de cachaça? Há quem tenha o hábito de jogar um pouco do líquido no chão para o Santo. Acreditem, esta é uma libação, semelhante ao libatio dos antigos romanos e gregos, que sempre iniciavam as refeições provando a bebida e despejando o restante no solo. Sem essa pequena cerimônia, os deuses teriam inveja da alegria do banquete e se vingariam.

Mas como esse costume chegou ao Brasil?

De acordo com o jornalista Edson Borges, autor de uma vasta pesquisa sobre a relação entre a cachaça e as religiões, no Brasil a oferenda passou a ser praticada com os colonizadores portugueses e jesuítas.

Com a “invenção” da cachaça, a bebida foi imposta aos escravos para combater o frio dos canaviais, como estimulante aos negros pouco produtivos e para curar doenças. “Com essa imposição de consumo da cachaça pelos negros, os portugueses também impuseram São Benedito, filho de um escravo, como padroeiro da aguardente, fazendo nascer daí uma relação bem mais ampla dos negros com o santo siciliano, a ponto de surgirem irmandades na Bahia”. explica o jornalista e pesquisador.

A partir daí, a cachaça passou a ser usada, também, em oferendas nas religiões com matrizes africanas, como, por exemplo, o Candomblé, com a mesma finalidade da Libação: um pedido de proteção aos orixás.

Ainda falando dos cultos de raízes africanas, existe a relação da cachaça e a figura do orixá Onilé. A expressão “oni” significa “senhor” no idioma iorubá, praticado na África do Sul. Já a expressão “ilé” significa terra. Dessa forma, Onié é popularmente conhecido como “o senhor da terra”. Como forma de pedir libertação e proteção em troca de oferendas, derrama-se uma dose de cachaça na terra para agradar o famoso “Santo”.

Essa identidade cultural e religiosa da aguardente gerou todo um folclore em torno da bebida. Há orações para bebedores, apelidos (como “urina de santo” e água-benta”) e rituais, como o de fazer a cara feia, depois de beber a cachaça. “Para espantar o diabo”, ensina Borges.

A cachaça na economia nacional

Se alguém lhe falar que gasta todo o seu dinheiro em cachaça, lhe agradeça pelo patriotismo, pois existem mais de 500 mil empregos no país relacionados à água-que-passarinho-não-bebe, e, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), o consumidor, este abnegado, paga mais de 80% de impostos sobre a que matou o guarda. Nossa exportação vem crescendo, mas ainda é pequena em relação ao volume produzido.

Para confirmar que cachaça também é cultura basta visitar um dos diversos museus que lhe são dedicados, como o do Sítio Ypioca, no Município de Maranguape/CE.

Degustando a cachaça

Aprendemos com o Guia da Cachaça que a boa “marvada” não resseca a boca nem queima a garganta. Também não deixa “bafo”. Seu buquê deve ser suave e agradável e lembrar levemente o aroma da cana. Uma última dica, a bebida de qualidade, quando agitada, forma uma espuma que deve desaparecer, no máximo, em 30 segundos.

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SOBRE O AUTOR
Sérgio Pires

Iniciou sua trajetória como enófilo na década de 1970. No final dos anos 1980, passou a estudar sistematicamente o tema e a realizar viagens a vinícolas. Após encerrar a carreira bancária, formou-se sommelier profissional pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-DF/UPIS). Profissionalmente atua como consultor, palestrante, articulista e jurado em eventos de vinho. É diretor da ABS-DF e professor em todos os seus cursos.

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