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Há oito anos, Maíra de Deus Brito, 30 anos, era uma tímida estagiária numa redação de jornal. Hoje, tornou-se mestre em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília e uma influente voz feminina nas redes sociais e em círculos de palestras em defesa da vida humana. Entre um tempo e outro, a jornalista ergueu uma ponte sustentada pela consciência de ser mulher, negra e empoderada (adjetivo, aliás, que ela adora).

Maíra vem de uma linhagem de mulheres negras no comando da família. A mãe rompeu o que parecia ser uma sina: a falta de acesso ao conhecimento (a avó fez o ensino fundamental incompleto). Chegou à especialização. Por parte de pai, a outra avó entendeu como poderia entregar a verdadeira alforria aos filhos. Colocou todos para estudar para terem curso superior.

Fui uma menina negra nascida e criada no Plano Piloto e em escolas particulares. Só depois de adulta, entendi que morar nesse lugar é um ato de resistência. O Plano ainda é branco. Mas luto para que seja cada vez mais negro."
Maíra Brito

O entendimento de Maíra veio pela revolução do conhecimento. Foi na Universidade de Brasília que percebeu o quão poderia caminhar para fora de limites. Entendeu a importância histórica do sistema de cotas, que mudou a rotina e a cara de uma UnB até então branca e elitizada. Teve contanto com literatura revolucionária e pessoas capazes de fazê-la compreender a potência vinda de sua história de vida.

A dissertação de mestrado de Maíra Brito é reflexo dessa apropriação. Tem despertado interesse nacional. Maíra atentou-se à quantidade de jovens negros mortos no Brasil. A maioria da periferia. É um massacre que o Brasil insiste em não combater. Boa parte é eliminada por agentes do estado. Em vez de debruçar diretamente sobre esses números, resolveu trocar o ponto de vista. Viajou para o Rio de janeiro e foi conversar com as mães que tiveram os filhos assassinados.

Entrei no cotidiano delas e como elas conduzem o destino depois de perderem seus filhos, jovens negros e periféricos. Observei como elas percebem a polícia, a mídia e a sociedade a partir do olhar de mulheres pretas."
Maíra Brito

O estudo de caráter inédito estende a dimensão dessa tragédia e abre caminhos para que a pesquisadora siga pelo doutorado. Com discurso afiado, ela tem voz forte nas redes sociais integrando a novíssima geração de mulheres negras e influenciadoras digitais.

É um espaço novo e democrático que ocupamos e discutimos temas que eram silenciados, como a solidão da mulher negra na faixa dos 50 anos, preterida tanto pelo homem negro, que prefere a mulher branca, quanto pelo homem branco. Elas são levadas ao celibato definitivo."
Maíra Brito

O papel de influenciadora digital, como Maíra, é crucial num momento em que as pautas de debate de minorias tentam ser sufocadas por grupos organizados de ultradireita, abertamente preconceituosos.

Ao mesmo tempo que ocupamos as redes sociais, nos debatemos com a força do racismo que se organiza e se propaga."
Maíra Brito

Atualmente redatora-chefe da revista independente “Seca”, Maíra multiplica sua presença como articuladora de projetos que ajudam a democratizar o acesso e pluralizar a cultura, como o Favela Sounds, festival que acabou de trazer para Brasília a diva angolana Titica.

O ciclo do racismo condena o negro à pobreza. Não tenho histórias tristes sobre isso para contar porque a educação foi a nossa revolução. Mas percebo olhares desconfiados quando vou visitar minha mãe. Eu sei como eu sou tratada por vizinhos novos. Há racismo, sim. Mas tem resistência."
Maíra Brito
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