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Me peguei discutindo o sistema digestivo de Sheila Hammond (Drew Barrymore): afinal, qual a necessidade de comer carne humana? Ela continua com o corpo decadente, os níveis de energia dela não se alteram de acordo com a fome, somente seu mau humor — bem como seu impulso de morte. Sem perceber, lá estava eu debatendo os hábitos alimentares e a fisiologia de outra mulher. E Santa Clarita Diet não é exatamente sobre a emancipação feminina?

Evidentemente, o feminismo ultrapassa todo o papo de corpo e dieta. Mas uma premissa básica é: queremos a possibilidade de sermos quem quisermos, sem a necessidade de validação dos homens ao nosso redor. Na primeira temporada, Sheila deixa de ser uma mulher retraída e assustada e se torna forte, atlética e assertiva. Nesta sequência, conhecemos melhor Ramona (Ramona Young), outra morta-viva que teve seu empoderamento impulsionado pela transformação-zumbi.

Essa não é a única desconstrução do “lugar de mulher” da segunda temporada de Santa Clarita Diet. Ramona, ao constatar que a solitária existência de zumbi de Sheila é amenizada pela parceria com o marido, Joel (Timothy Olyphant), decide forçar Eric (Skyler Gisondo) a ser seu namorado. Num plot veloz, desmistifica-se o amor romântico compulsório destinado à maioria avassaladora das personagens femininas. Ramona, então, constata: existir sozinha e conviver consigo mesma é muito melhor a estar com alguém apenas para preencher um vazio.

 

Por falar em Eric, a quedinha dele por Abby (Liv Hewson) se intensifica ao ponto insustentável de se quebrar a friendzone. Covarde, o rapaz não reúne coragem para tocar no assunto, resolvido sempre pela garota: ela toma a iniciativa de informá-lo que a chance de ficarem juntos é de 3%.

A série acerta também ao se concentrar na pergunta: e se existirem outros? No desespero de encontrar uma cura, os Hammonds não se preocuparam em compreender a raiz do problema. Somente com a revelação de que Ramona é uma morta-viva, a equipe entende a possibilidade de existirem ter outros zumbis à solta. A grande revelação: a linha da terceira temporada não são as ostras venenosas, mas os interesses daquele casal misterioso obcecado por cada cada passo da família.

Sem as piadas canastronas, a série jamais se sustentaria. Santa Clarita Diet manteve o humor besta que marcou toda a primeira temporada. Acerto maior é a volta de Gary (Nathan Fillion), não só porque todos os trocadilhos possíveis com cabeças decepadas foram feitos, mas por causa do arco redentor pelo qual o personagem passa.

Enfim, o grande dilema moral da temporada: nessa situação, é razoável matar um nazista? Mesmo se ele for um cadeirante? Essa parte da história causou polêmica na internet, mas não há o que se questionar. O mundo fica, de fato, melhor e mais justo sem a supremacia branca. No final, a conclusão dos 10 episódios é inusitada, mas difícil de discordar: talvez precisemos mesmo de uma zumbi empoderada para livrar o mundo dos maus e injustos.

Avaliação: Ótimo



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