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A paixão nacional do brasileiro merece um capítulo especial, até porque os portugueses também são amantes do futebol. Eu precisava viver isso na pele, ao vivo, num estádio, para sentir o que os nossos irmãos sentem.

Mas, antes de narrar a epopeia de assistir a Belenenses x Porto, no pequeno Estádio do Restelo, em Lisboa, é preciso fazer uma breve preleção, para usar uma linguagem do futebol.

Primeiro, deve-se considerar que o Campeonato Português, pela sua dimensão, não é maior que um Campeonato Paulista ou Carioca. São 18 times na Primeira Divisão, mas todos sabem: só contam de verdade três equipes – Benfica, Porto e Sporting, em ordem alfabética, para não parecer estar privilegiando algum deles. O resto é figuração, como também na maioria dos estaduais do Brasil. Cruzeiro e Atlético, Grêmio e Internacional, Bahia e Vitória, além dos quatro grandes de São Paulo e os quatro grandes do Rio.

Interessante que, como o país é pequeno, você encontra inúmeros portistas em Lisboa, assim como vários benfiquistas e sportinguistas no Porto. Não há o bairrismo acentuado como no Brasil. Agora, a coisa é tão séria que há um programa esportivo na TV às segundas-feiras comandado por um apresentador e três comentaristas, cada um deles descaradamente adepto (como eles chamam o torcedor em Portugal) de um dos três times. Hilário, pois eles tentam ser corteses e isentos, mas estão ali para defender as bandeiras dos seus times.

Mas, voltando ao jogo Belenenses x Porto, ocorreu numa segunda-feira à noite, 2 de abril, no estádio que fica no Belém, região nobre de Lisboa, daí o nome do time da casa. Em local elevado, a arena garante uma bela vista do Rio Tejo e da Ponte 25 de Abril. Fui acompanhado de dois amigos portugueses, adeptos do Porto, que estavam ali para fazer de mim mais um portista.

Cheguei cedo, e, como a maioria dos adeptos, saídos direto do trabalho, mortos de fome, envergando os seus cachecóis com as cores e o escudo do time. Em volta do estádio, como no Brasil, dezenas de trailers e barraquinhas vendendo hambúrgueres e bifanas, que é como se chama aqui o sanduíche com carne de porco. Não vi nenhum churrasquinho de gato, mas não dá para dizer que era um lanche gourmet.

Para entrar no estádio, longas filas, porque a revista é rigorosa, e quase perdemos o início do jogo. Ou seja, tão desorganizado quanto assistir a um jogo no Mané Garrincha, em Brasília. Por falar nisso, o Estádio do Restelo por dentro parece o antigo Mané, com aquele aspecto de campo de várzea e uma infraestrutura bem precária.

Os belenenses eram os donos da casa, mas a torcida do Porto estava obviamente em número muito maior. O que compensava era um locutor/animador cuja voz ecoava pelo estádio na tentativa de animar os poucos adeptos do time local. Nada daquela neutralidade dos narradores das arenas brasileiras, que anunciam as substituições dos times com total isenção.

O sujeito era chato mesmo, mas parece que acabou dando sorte ao time. Resultado: o Porto dominou o jogo, com uns 80% de posse de bola, mas o Belenenses ganhou. Dois chutes a gol, dois gols, num jogo de nível técnico bem ruim. Meus dois amigos sem graça, tentando encontrar uma explicação para a derrota, mas no fundo eles sabiam qual era: quem mandou convidarem um brasileiro pé-frio para assistir ao jogo? Já até me disseram que vão me chamar para assistir a uma partida do Benfica só para eu dar azar para o atual campeão português.

Faltam apenas dois meses para o início da Copa do Mundo na Rússia, mas não se vê aqui aquela febre com a seleção, pelo menos por enquanto. A impressão é que os times de futebol mobilizam mais do que o escrete nacional. Vou sentir falta daquele clima contagiante no Brasil. Nem o álbum de figurinhas da Copa faz sucesso aqui. E confesso: vai ser difícil completar o meu, pois os pacotes custam o dobro do Brasil e não há com quem trocar. Aceito doações…



 


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