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A Páscoa já passou, o coelhinho já deixou seus ovos. Mas era preciso que ela passasse por mim para exprimir o que essa data tão importante significa em Portugal.

Para começo de conversa, percebe-se aqui um sentido religioso mais profundo que no Brasil. O simbolismo original da data permanece e se sobrepõe aos apelos comerciais.

Isso fica evidente em uma visita a qualquer supermercado. No Brasil, fazem-se aqueles túneis de ovos de Páscoa, que no Sábado de Aleluia normalmente já estão escassos, com alguns poucos itens resistentes, já quebrados. Ovos de todos os tamanhos e embalagens, recheados de super-heróis, princesas e outros brinquedos-surpresa. A criatividade da indústria do chocolate não tem limites. Pense em um novo filme blockbuster infantil. Com certeza, estarão lá, nas gôndolas, produtos licenciados com o tema, para o deleite e a engorda das crianças.

Em Portugal, isso não acontece. Claro que há, nos supermercados, as áreas reservadas aos produtos de Páscoa, mas são bem mais modestas. Além dos poucos chocolates em forma de coelho ou de ovo, muitas, mas muitas amêndoas. Brancas ou coloridas. Com cobertura de açúcar, chocolate ou canela.

As amêndoas são uma tradição desse período em Portugal, e devem sempre ser oferecidas. Se olhamos com atenção para as amêndoas da Páscoa, percebemos que se parecem com ovinhos coloridos. De fato: elas são um tributo aos ovos, símbolo da Pascoa e da renovação da vida que chega com a Primavera, uma tradição pagã que o cristianismo incorporou, dando-lhe outros significados. Isso reforça o sentido de uma data vinculada ao calendário do Hemisfério Norte, afinal a Páscoa é celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da Primavera. Ou você, com esse espírito epicurista, achava que a Páscoa era o dia de comer chocolates quarenta e poucos dias depois do Carnaval?

Outra tradição culinária portuguesa na Páscoa são os folares. Está aí um negócio, a meu ver, esquisito. O folar é um pão grande, arredondado e doce, com canela. Só que, em cima dele, se colocam uns dois ou três ovos cozidos, meio que enterrados no pão. Com casca. Fica, na verdade, parecendo um ninho. Sinceramente, não acho a mistura muito apetitosa. Mas tradição é tradição, e o folar celebra a amizade e a reconciliação.

Os afilhados costumam levar, no Domingo de Ramos, um ramo de violetas à madrinha de batismo e esta, no Domingo de Páscoa, oferece-lhes um folar em retribuição. Bem, existem diferentes tipos de folares e várias tradições regionais em Portugal, sempre ligadas à gastronomia, que exigiriam um tratado, não uma modesta coluna semanal.

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Importante é perceber que, em Portugal, como de resto em vários países da Europa, há um sentido mais lúdico e singelo na data: as crianças são encorajadas a pintar ovos e o domingo é dia de caçá-los nos jardins. E para elas, de fato, é uma festa, afinal, nesse período, as escolas entram em férias de Páscoa. Uma semana inteira de folga para os miúdos. Em alguns colégios, duas semanas… Um bom jeito de celebrar o início da Primavera! Ou de enlouquecer os pais em casa.



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