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Renata Laguardia, de fato, experimentou uma reviravolta em seu trabalho quando esteve fazendo mestrado na França, há dois, três anos. Bacharel em pintura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, ela buscou a École Éuropéene Supérieure de L’Image, em Poitiers, para aprofundar sua pesquisa teórica e prática em retratos.

Retratos de pessoas em grupos, mais especificamente, tema de largo retrospecto dentro da história da arte, da pintura em particular, e que já vinha percorrendo a produção dessa jovem artista mineira desde seus estudos em Belo Horizonte. Porém, a temporada em Poitiers também valeu para que ela aprendesse uma coisa ou duas sobre solidão.

Foi a primeira vez que Renata viveu no exterior. Até então, não sabia como era se sentir estrangeira. De repente, morando num quartinho, começou a olhar para si própria – e para o que estava à sua volta – de outra maneira. “Eu me sentia muito só. Com dificuldade de reconhecer um lar, dificuldade de desenvolver afeto com os lugares.”

Buscando classificados on-line de imóveis para aluguel e à venda, Renata tinha um interesse muito imediato: precisava se mudar daquela casa, onde não se sentia à vontade com a proprietária, não se sentia mais bem-vinda. Começou a colecionar as fotografias que encontrava nos anúncios de internet. Quartos vazios, ambientes impessoais, móveis sem memórias, arquiteturas desabitadas.

“Fotografias tão frias, nenhuma espécie de afeto, nem nada.”

 

Ela não sabia na época, mas começava ali a série mais recente de pinturas, que Renata Laguardia agora apresenta na Alfinete Galeria. Estratégia para o Desafeto, sua primeira mostra individual em Brasília, segue em cartaz até 21 de julho.

Logo na entrada da sala térrea da pequena galeria, Sinfonia em Vermelho, a única tela dessa nova produção a receber um título individual, serve como ponto de partida para se percorrer as paredes da exposição – assim como, para a artista, serviu como início emocional e poético dessa pesquisa, que aqui já se apresenta um tanto avançada.

Para essa composição, Renata se valeu de uma das tais fotografias pescadas dos classificados de Poitiers. As linhas de sua pintura são as mesmas da arquitetura original, assim como a porta aberta para uma quina de corredor. “Mas cismei de botar o chão em vermelho”, ela aponta. “O inconsciente manda em minha produção. Primeiro, eu faço. Apenas num segundo momento, eu paro, reflito e escrevo sobre o que eu fiz. Esse vermelho, as pessoas depois comentaram comigo, parecia sangue, parecia uma cena de O Iluminado, o filme do Kubrick. ‘Calma aí!’, eu disse. Realmente, não tinha notado que nessa tinta há uma viscosidade, um brilho, um escorrimento. Então, quis entender o que eu tinha feito.”

 

Renata Laguardia hoje compreende aquele vermelho viscoso e escorrido. “Era a fase máxima da falta de afeto, da violência pungente, uma coisa mais forte, agressiva.” Meses mais tarde, quando voltou ao Brasil, para sua cidade, Belo Horizonte, continuou a investigar arquiteturas e interiores, porém sua pintura tomou outros rumos.

A sensação de pertencimento, como ela diz, voltou a se tornar algo possível. É desse momento o conjunto de pequenas telas dedicadas aos mais singelos objetos de uma casa – luminária, vaso sanitário, par de camas com uma cômoda. Também são desse reencontro com Belo Horizonte a série Para Ver com a Memória das Mãos, em que Renata pintou um interruptor de luz, uma torneira de cozinha, uma descarga de banheiro, uma maçaneta de porta.

“É quando eu começo a focar detalhes para reconhecer, de novo, o que é lar. Objetos do cotidiano da casa que passam despercebidos. Estamos tão acostumados com esses objetos que já nem os vemos mais, as mãos é que sabem sobre eles. Quis registrá-los visualmente.”

 

Um terceiro momento dessa pesquisa se ofereceu a ela quando, acompanhando equipes de assistentes sociais, Renata Laguardia visitou casas na periferia de Belo Horizonte. Dentro dessas ações governamentais, a intenção do grupo era verificar as condições de vida daquelas pessoas, candidatas a benefícios estatais.

O trabalho de Renata como membro da perícia técnica era tirar fotografias para os registros documentais. Mas ela encontrou mais do que um inventário material. “Encontrei afeto. Encontrei relações mais humanas com os ambientes, encontrei histórias de vidas. São pessoas boazinhas, educadas, adoráveis, que nos recebem muito bem.”

Um dos quadros expostos na Alfinete Galeria foi feito a partir desses registros. Um par de cômodas, ventilador, uma mesinha com itens pessoais. Um nicho com imagem de santa. No chão, aquele piso de cimento queimado e pó xadrez vermelho, popularmente chamado de… vermelhão.

 

Na parede ao fundo da Alfinete Galeria, arrematando a expografia, uma arquitetura de pinturas de arquiteturas, um toque mais autobiográfico, uma cena do lar de Renata Laguardia. Ela levou para dentro de seu quarto todas as plantas que tinha espalhadas no apartamento. Quis criar uma “floresta”.

O visitante que se sentir mais acolhido no ambiente e se permitir aproximar-se um pouco mais da cena – ou, quem sabe, até se abaixar um pouco para notar os detalhes da vegetação – perceberá que algumas das linhas dos desenhos não correspondem com os campos de cor.

Assim, a mesa de cabeceira dá uma leve patinada dentro de seu contorno. E a uma das folhas, ao pé da cama, falta o adequado preenchimento verde – então, através dela, vê-se o lençol do móvel. É como se a linguagem de Renata partisse de uma certa intenção realista e se permitisse quebrá-la aqui e ali, para se deixar perceber tanto como representação quanto como criação.

Desse modo, por exemplo, a descarga metálica de banheiro na série Para Ver com a Memória das Mãos tem uma forma circular que o gestual da artista leva do objeto real, ali representado, para a textura da parede branca pintada por ela ao redor. E, voltando ao início desta visita, início desta conversa, o chão de Sinfonia em Vermelho traz um corpo, uma densidade própria da tinta óleo, uma materialidade que interessa a Renata Laguardia.

“Assim como todo mundo que trabalha com pintura, eu já questionei o lugar da pintura. Esse é um questionamento frequente e necessário, pelo menos desde a invenção da fotografia. Para mim, acho que a matéria é importante. O movimento de quem está fazendo. Isso a fotografia não pode nos dar. E esse é um dos motivos pelos quais eu pinto.”

Bernardo Scartezini/Metrópoles

Pinturas da série Para Ver com a Memória das Mãos, óleo sobre tela



 


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