As cascas de árvore, a passagem do tempo e a obra de Ludmilla Alves

A exposição da artista está em cartaz na galeria deCurators

Bernardo Scartezini/ Esepecial para o MetrópolesBernardo Scartezini/ Esepecial para o Metrópoles

atualizado 22/06/2018 17:03

Ludmilla Alves conta o tempo nas cascas das árvores. E empresta ordem a esse material tão cru, recolhido da própria natureza direto para dentro de suas obras. Esses dois aspectos do trabalho da artista chamaram a atenção de Atila Regiani em meio a diversos currículos e projetos que ele teve diante de seus olhos ao participar de uma banca de seleção para um edital.

De modo que, quando Gisel Carriconde Azevedo o procurou, meses mais tarde, para que participasse do ciclo Curare, que ela vem promovendo este ano na galeria deCurators, Atila tinha ainda fresco nos seus interesses o nome com quem ele gostaria de trabalhar.

A ideia era que fosse uma parceria inédita, um encontro ainda não realizado entre curador e artista neste nem tão amplo mundo das artes visuais brasilienses. Atila Regiani e Ludmilla Alves tinham amigos em comum, já se conheciam pela cidade, mas de fato ainda não haviam formado dupla, nem enfrentado a nova missão que se apresentava: ocupar a vitrine da galeria da 412 Norte.

Começaram as aproximações. Gisel e Atila visitaram o ateliê de Ludmilla, na Colônia Agrícola 26 de Setembro, entre Taguatinga e Brazlândia. E ali mesmo, aquela ocasião, o curador já teve claro o que pretendia com sua artista. Começou, portanto, o que ele chama de “trabalho de convencimento”.

A ideia de Atila Regiani era apresentar na vitrine as cascas de árvore que Ludmilla Alves coleta, organiza e rearranja em sua pesquisa. Tal como se deCurators fosse um gabinete de curiosidades, o catálogo de algum estudo de história natural em que a exatidão científica desse vez às liberdades poéticas.

Visitando Atila Regiani na Asa Norte, percorrendo os livros de história da arte na biblioteca do professor e curador, Ludmilla Alves de fato se convenceu de que esse gabinete de curiosidades poderia funcionar. Conversando sobre um primeiro momento de dúvida, agora que a exposição está em cartaz há um par de semanas, ela aponta que estava com certo receio de repetir – e receio de se repetir.

Não faz muito, entre dezembro e janeiro, ela apresentara o primeiro trabalho dessa pesquisa poética no Museu Nacional Honestino Guimarães. Práticas de Notação do Tempo, Número 1 foi sua obra realizada após uma residência em Olhos D’Água, interior de Goiás, e exposta na coletiva Eixo do Fora que reuniu os artistas daquela empreitada (https://www.metropoles.com/colunas-blogs/plastica/mostra-exibe-imagens-do-deslocamento-entre-brasilia-e-olhos-dagua). Pois agora, desta feita, na deCurators, Ludmilla e Atila trazem um segundo momento dessa mesma pesquisa: Práticas de Notação do Tempo, Número 2.

“O primeiro ponto de diferença está nas condições de montagem, na própria instalação da obra”, compara Ludmilla. “Eu antes estava no Museu, rodeada por artistas. Já aqui eu estava na rua, um lugar que eu achava um pouco estranho. Mas perdi essa estranheza quando me deixei levar pelo fluxo da rua, das pessoas que passam, comecei a entender os horários, saber que no fim da tarde vai ter o caminho de volta do colégio. Algumas pessoas, mesmo me vendo através do vidro da vitrine, preferiam não conversar comigo. Eu entendi isso. Tudo bem. Mas outros queriam perguntar, queriam entender, afinal, o que eu estava fazendo com esse material que para elas é descarte, nada mais do que descarte.”

Por mais que pareça estar isolada do mundo, envidraçada, uma obra dentro de uma vitrine, nota Atila Regiane, está em permanente comunicação, permanente diálogo entre espaço interior e espaço exterior. Nesse sentido, a obra de Ludmilla agora está muito mais próxima do mundo real do que estava antes, abrigada no interior da monumental arquitetura do Museu Nacional. E como a deCurators fica nos fundos da rua comercial, de frente para a superquadra, as cascas de árvore agora muito mais próximas da natureza do que estavam antes.

Muitas das cascas aqui em exibição, aliás, foram coletadas nos arredores da 412 Norte. Outras tantas foram trazidas por Ludmilla de seu ateliê, coletadas em outros lugares ou recebidas como presente de amigos – que agora todos sabem do peculiar interesse dela. Aquelas cascas de árvore vistas no Museu Nacional, no entanto, já não estão mais.

“Este é um material em decomposição que foi recolhido da natureza e que continua em decomposição”, aponta Atila Regiani, chamando a atenção para outro ponto do trabalho de Ludmilla, um aspecto que tem muito a ver com o interesse acadêmico dele próprio. Professor do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, ele defendeu um doutorado na própria instituição sobre curadorias poéticas e museus utópicos. Ou seja, como a curadoria e a museologia precisam se aproximar do funcionamento específico de determinadas obras.

“A lógica do museu se sustenta num tripé: conservar, divulgar e pesquisar. Mas obras como esta são perecíveis. E por isso nunca serão montadas da mesma forma em outro lugar. Quando esta instalação for montada de novo, Ludmilla terá de buscar cascas novas. Então esta obra é um evento, um acontecimento. Conservá-la também se torna impossível. A própria natureza não conserva uma casca de árvore. Minha pesquisa no doutorado foi pensar qual seria a configuração de um museu para essas obras, que trabalham com o efêmero, o não conservável, o mutável.”

A passagem do tempo também é um elemento que se apresenta nas pesquisas poéticas de Ludmilla Alves. Integrante do grupo Vaga-Mundo, ela propõe e realiza exercícios com elementos brutos (terra, pedra, carvão). Muitas vezes trabalhando na própria natureza, em intervenções ao ar livre, obras abertas às intempéries, ao fortuito e à ação do tempo.

De certa forma, portanto, a vitrine impõe condicionamento para a obra de Ludmilla. Não apenas no sentido de uma obra tão perecível estar ali resguardada naquela espécie de aquário enquanto lentamente se desfaz – um pouco mais a cada instante. Mas também no sentido de que o observador tem que se adequar às condições em que se está a vê-la.

“Há essa barreira que o vidro impõe. Há um limite para se aproximar da obra. Então o olhar vai mais para a imagem, através do vidro”, diz a artista. Essa imagem ela criou, essa composição em cascas de árvore e eventuais lascas de carvão, Ludmilla entende como um mecanismo. “Na minha cabeça, é como se fosse uma escrita de mundo. Como caligrafias, ideogramas, hieróglifos. As cascas vão se arranjando, se ordenando na parede. As próprias formas pedem outras formas.”

Nesse sentido, de escrita de mundo, o visitante que for à deCurators em tardes ou noites de evento, pode entrar porta a dentro e encontrar na pequena sala interna da galeria a segunda obra erguida por Ludmilla & Atila. Um video chamado “Tempestade”, que a autora conta ter surgido quase como numa brincadeira.

“Era uma brincadeira de prática cosmogônica. Quis fazer uma constelação a partir de furos dentro de uma caixa preta. Era essa a ideia. Eu atirava poeira sobre a caixa e furava a caixa onde a poeira caía. Então surgiu uma constelação feita de furos. Abro os buracos e a caixa vai se iluminando através desse gesto totalmente caótico de lançar a poeira e ver o desenho que ela faz.”

Para Atila Regiani, esse gesto de lançar poeira e criar estrelas explica aquele outro gesto, o de recolher cascas de árvore.

“Ao longo do tempo, a ciência se desvinculou de todo o misticismo ligado aos gabinetes de curiosidade, que tinham dragões, tinham sereias. Mas o estudo dos astros se manteve. A astrologia manteve essa questão mística. É uma medição pelo afeto. A notação do tempo da astrologia é a notação do afeto, aquilo que retorna, aquilo que é sombra. Vejo que a Ludmilla está numa investigação bem coerente: contar o tempo vendo as cascas descascando, contar o tempo olhando para as estrelas.”

Bernardo Scartezini/ Esepecial para o Metrópoles
Ludmilla Alves e Atila Regiani diante da deCurators

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