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O meu último Dia das Mães sendo apenas filha foi particularmente emocionante. Era maio de 2013, eu estava grávida e escolhi a data para contar à minha mãe que ela seria avó. De conchavo com a minha irmã, comprei uma roupinha de bebê, embrulhei e dei para ela, dizendo que não sabia se iria gostar, mas que, infelizmente, o presente não poderia ser trocado. Ao se dar conta do que aquilo significava, minha mãe deu um grito, chorou, ficou com taquicardia e eu achei que precisaria chamar o Samu.

No vídeo que gravamos daquele momento, no melhor estilo câmera escondida, dá para ver eu e minha irmã trocando olhares, do tipo “meu Deus, ela vai ter um treco”, sem entender direito aquela reação. Passados quase três anos daquele dia, eu, mãe de dois filhos, entendo.

Entendo, por exemplo, a diarreia que minha mãe conta ter tido ao me ver com febre pela primeira vez, aos seis meses de vida. Nós duas fomos ao pediatra e a médica ficou na dúvida se me examinava primeiro ou se a socorria. Entendo também o instinto que a motivava a sair para a rua quando dava alguma confusão entre a meninada. Muito brava, pano de prato nas mãos, ela bradava: “Não se metam com as minhas filhas!”.

Também entendo o que ela sentiu ao me dar um tapa. Travávamos uma “disputa” sobre onde deveria ficar a saia que eu vestia, eu agoniada com o tecido que pegava na minha barriga, ela com pressa para que eu me aprontasse logo. Depois do tapa, ficamos as duas chorando, ela pedindo perdão, e ninguém mais foi a lugar algum.

Arquivo Pessoal

Minha mãe, comigo nos braços

Entendo como deve ter sido emocionante ouvir sobre a minha primeira relação sexual. Depois de fazer as perguntas protocolares (“Tu te protegeu? Usou camisinha?”), ela quis saber se eu havia sentido muita dor. Eu disse que sim, um pouquinho, e lá veio ela me abraçar e chorar e agradecer a confiança por eu ter lhe contado sobre aquilo – e eu, fiquei respirando aliviada por não ter levado uma bronca.

Posso entender como deve ter sido para ela participar do nascimento dos meus dois filhos. No primeiro, me vendo gemer por pouco mais de cinco horas, fazendo força para que o neném nascesse. Tenho na memória a voz dela emocionada, dizendo “Filha! Filha!”, bem na hora em que Miguel veio ao mundo. Também tenho gravada na minha mente a exclamação dela ao se dar conta que meu segundo filho, Solano, estava chegando. “Lourenço! Tá nascendo!!!”, ela gritou, e posicionou as mãos para aparar o neto (a história da minha mãe parteira está aqui).

Ainda sou novata nessa coisa de ser mãe, mas sinto que, depois de um filho, a gente cruza uma espécie de fronteira, passa a viver as emoções de um jeito até então desconhecido."

E essa nova perspectiva é arrebatadora, para dizer o mínimo. Por isso, mãe, obrigada por tantas coisas ensinadas. Hoje eu entendo tudo (ou quase tudo). Hoje eu entendo o que é ter o coração fora do corpo, como diz o clichê.

Se você tem histórias emocionantes – ou divertidas, inspiradoras, de superação – sobre sua mãe ou sobre a sua vida como mãe e gostaria de compartilhar, conta para a gente! Mande um e-mail para redacao@metropoles.com, com o título “Licença, Maternidade”, ou mande uma mensagem no Facebook do Metrópoles. Vamos publicá-las aqui na coluna da próxima sexta.



 


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