Saiba tudo do último dia de evento de moda que movimentou SP

Futuro dos estilistas e mercado internacional estão entre os temas de palestras e bate-papos, com nomes como Luisa Farani e Alfredo Orobio

atualizado 25/10/2019 15:30

Nicolas Calligaro/Divulgação/Iguatemi Talks

São Paulo (SP) – Depois de abordar assuntos como rumos para sustentabilidade e trabalho manual, a terceira edição do Iguatemi Talks chegou a uma temática mais ligada a negócios e indústria em geral. Para o último dia de conversas, o evento reuniu os estilistas Luisa Farani e Alfredo Orobio em um debate sobre o futuro da profissão. Além disso, convidou o italiano Michele Norsa para levar uma perspectiva sobre o mercado internacional da moda.

Vem comigo saber mais!

 

No painel O Futuro da Profissão de Designer de Moda, mediado pelo escritor Jorge Grimberg, os participantes explicaram que, hoje, é preciso saber um pouco de tudo. A profissão não trata-se apenas de desenvolver looks.

“É uma profissão recente, mas mudou muito nos últimos 10 anos com a internet. Temos um acesso gigantesco, um número ilimitado de informações e referências”, destacou Alfredo Orobio. Ele é o fundador da Awaytomars, rede colaborativa de talentos criada em Londres, na Inglaterra. Atualmente, a plataforma tem mais de 15 mil designers registrados de 93 países.

“O estilista precisa se conectar não só às referências de moda, arte e arquitetura mas também ao que está acontecendo na rua e na geopolítica. Tem que ser um resumão do que acontece no mundo, transferir isso para uma roupa”, enfatizou.

A outra convidada foi a brasiliense Luisa Farani. Em 2017, ela entrou na lista dos jovens mais influentes do Brasil, de acordo com a Forbes. Desde junho do ano passado, seu foco são vendas on-line.

No Iguatemi Talks, a estilista concordou que a realidade exige que o profissional seja cada vez mais multifacetado. “Ele tem que ser um comunicador, artista, designer, empreendedor. Acaba atuando em várias áreas do negócio para, realmente, ser um diretor criativo”, comentou. “É necessária uma boa imagem do aspecto socioeconômico e cultural do mundo, porque isso reflete no desejo do consumidor”, completou.

Rebeca Ligabue/Metrópoles
A conversa entre Luisa Farani e Alfredo Orobio foi mediada por Jorge Grimberg

 

Os convidados também lembraram que, atualmente, as empresas têm acesso a diferentes ferramentas de dados para gestão do próprio negócio. Farani disse que mesmo marcas pequenas podem mensurar de várias maneiras. Segundo ela, os número caminham ao lado do instinto.

“Mesmo se não houver o melhor algoritmo ou um banco de dados enorme, mas se você tem um e-commerce ou seguidores no Instagram, por exemplo, isso já te dá algum tipo de dado. Você tem que aprender a ler essa informação e utilizá-la. Isso também funciona na hora de fazer o design, olhar o que mais vendeu. Isso pode te orientar. Todo mundo tem acesso a dados, é só uma questão de volume e com que precisão você consegue analisar”, ponderou a brasiliense.

Orobio complementou com a ideia de que é preciso saber organizar as estatísticas estrategicamente. “Quando criamos a Awaytomars, uma das primeiras coisas que fizemos foi tentar montar esse database. Recebemos muitos dados e fica tudo armazenado”, exemplificou.

Outro ponto da discussão envolveu o espaço oferecido pela indústria a estilistas artísticos e performáticos, como John Galliano. Para Farani, o DNA disruptivo é o que dita as tendências.

“Ainda que seja mais difícil trabalhar com esse tipo de produto, naturalmente mais caro, exige tempo e uma produção diferente. É a marca que cria o padrão do mercado. Quando vemos as fast fashions, com um volume muito maior, elas trabalham em cima do desejo que foi criado por marcas como uma Alexander McQueen”, opinou a estilista.

Nicolas Calligaro/Divulgação/Iguatemi Talks
Luisa Farani acredita que o DNA artístico ainda tem espaço na indústria

 

A economia circular, que envolve sustentabilidade, também entrou na pauta. Afinal, a indústria vive o desafio de repensar o processo de desenvolvimento de produtos e todas as consequências geradas.

A alternativa ideológica parte do pressuposto de que os recursos da humanidade, consequentemente no meio fashion, são finitos. Envolve a eliminação de resíduos e controle da poluição, a continuidade de produtos e materiais que já existem em ciclo de uso, além da regeneração de sistemas naturais.

Para Orobio, o conceito precisa ser abordado como regra em escolas de moda. “Não faz mais sentido criar e colocar no mercado um produto que não esteja com essa mentalidade, que não tenha sido criado com o intuito de ser reaproveitado, reinserido na sociedade ou regenerado”, frisou.

Farani incrementou o raciocínio: “O desperdício envolve dinheiro também, uma verba que a empresa está perdendo. Então, o fato de conseguir trabalhar a economia circular é melhor para o negócio, assim como é melhor para o planeta. No entanto, é muito difícil, aí que entra a criatividade”, continuou.

“Sobrou tecido? Tenta incluir isso em uma próxima coleção. Se o pedaço de tecido é menor, trabalho um patchwork ou um acessório. É dar um propósito e transformar em renda para a sua empresa”, recomendou Luisa.

O idealizador da Awaytomars introduziu, ainda, a necessidade de adicionar os clientes ao aprendizado. De acordo com Alfredo Orobio, a transparência da marca envolve o comprador na história da label e, com diálogo aberto, o transforma em um gerador de ideias e sugestões interessantes para o crescimento do business.

Entre os assuntos do painel, também estiveram as mudanças de comportamento de consumo dos novos consumidores. Os estilistas lembraram que a geração Z demanda mais responsabilidade social das grifes, além da necessidade de mais diversidade na indústria.

Na visão de Alfredo e Luisa, é tudo uma questão de mudança de perspectiva. Se uma marca conta com uma equipe diversificada, consequentemente a inclusão e a representatividade serão refletidas na mercadoria final.

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Alfredo Orobio se tornou referência em sustentabilidade na moda

 

Mercado internacional

O dia de talks incluiu Michele Norsa, entrevistado por Daniela Falcão – CEO do Condé Nast. Nascido na Itália, o convidado construiu uma carreira sólida como consultor estratégico. Atualmente, está no cargo de industrial partner da FSI. Além disso, atua como vice charmain na Missoni e Laura Biagiotti.

Também é membro do Conselho Consultivo Internacional da China Europe International Business School (Ceibs), em Xangai. Para completar, Norsa já foi gerente executivo de grupos como Salvatore Ferragamo S.p.A., no qual foi CEO até agosto de 2016, e Valentino Fashion Group S.p.A.

O italiano conduziu a palestra seguindo o conceito de que “luxo é um jeito de se viver”. Ele explicou que o setor glamouroso da moda envolve os pilares: prazer de presentear, cuidar de si mesmo, experiências e compartilhamento.

Michele Norsa apresentou dados que mostram que o mercado de luxo, em 2019, envolveu um crescimento significativo na China. Outros países asiáticos, em seguida, assim como a Europa, aumentaram a relevância para o setor, mesmo que em menor quantidade.

Por outro lado, em geral, as Américas diminuíram a expansão no luxo. Canadá e México seguem fortes, enquanto o mercado no Brasil reflete o impacto das incertezas no cenário político, segundo o executivo. Norsa citou as queimadas na Amazônia e a potencialização da violência no Rio de Janeiro, que acabaram influenciando negativamente a economia do país e a forma como o mundo o enxerga.

Ele destacou que as taxas de importação aqui são muito altas e podem impactar em mais de 40% no preço final de uma bolsa de luxo, por exemplo. “Os brasileiros gastam cerca de 80% no exterior, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa. A classe média é impactada por altos preços”, mostrou Norsa.

O executivo enfatizou a concentração de marcas de luxo em poucos lugares no país. “Estão em dois shoppings de São Paulo e mais dois no Rio de Janeiro. Fora isso, é muito difícil ser explorado por companhias estrangeiras”, observou. “A única forma que vem à minha cabeça para mudar esse cenário é com investimento em infraestrutura e segurança”, apontou.

Contudo, melhorias podem ocorrer. O palestrante ressaltou que o Brasil tem a vantagem de ter marcas novas e criativas em ascensão.

Em um panorama global, Norsa falou sobre a relação das marcas de luxo com as transformações digitais. Ele ressaltou a importância de investir em tecnologia, mas não acredita que a realidade dos e-commerces acabe com o setor.

“O ticket médio para compras on-line é muito baixo, mesmo para empresas de luxo”, comentou. “Quando querem comprar coisas caras, as pessoas vão até a loja física”, concluiu o italiano.

Nicolas Calligaro/Divulgação/Iguatemi Talks
Renomado no mercado internacional, Michele Norsa veio ao Brasil para fazer um balanço geral do segmento de luxo

 

Nicolas Calligaro/Divulgação/Iguatemi Talks
O executivo conversou com a jornalista Daniela Falcão

 

 

O Iguatemi Talks aconteceu de 22 a 24 de outubro, em São Paulo. A iniciativa incluiu palestras, bate-papos, workshops e mentorships sobre temas variados ligados ao universo fashion.

 

Colaborou Rebeca Ligabue

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