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Estive na primeira Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho de 2003. Nunca mais voltei. Fiquei com a imagem cravada no norte-americano Don DeLillo, em rara entrevista coletiva e a caminhar sozinho sobre as pedras da cidade histórica. Estive com Hilda Hilst no começo de 1998. Nunca mais voltei. Fiquei para sempre com o quadro desolado da Casa do Sol, a chácara perto de Campinas, no interior de São Paulo, onde a escritora viveu por quase 40 anos.

Pouco mais de seis meses depois da Flip inaugural, a paulista Hilst morreria aos 73 anos de idade. Entre os dias 25 e 29 deste mês, ela é a autora homenageada do encontro no litoral fluminense. Demorou. Mas nunca é tarde para a literatura. A obra da “obscena senhora” reaparece nas páginas da cobertura cultural e nas prateleiras reais e virtuais das melhores casas do ramo. Excelente oportunidade para conhecer ou retornar ao calor de uma inconfundível aspereza poética.

Corpo atravessado por ficção, Hilda Hilst oferece aos convidados um cálice de vinho do Porto. É ainda manhã. Nas paredes rosáceas, estão imagens de família e de fé. Há um pátio interno. Latidos de dezenas de cães não demoram a inundar o espaço. Eles vivem ali, entre as pernas. Lembro-me de afeto incontido, uma raiva reversa, não vacinada. Os animais são como versos recolhidos nas ruas, restos que ninguém queria àquela altura, negação do abrigo, sinal fechado sem poesia.

Hilst dá a mão enquanto Zeca Baleiro canta ao fundo. Esse som vai reverberar no texto que surge para as páginas da imprensa ainda apenas impressa. A autora de Poemas malditos, gozosos e devotos quer mostrar a mim e ao fotógrafo marcas sobrenaturais nos muros que delimitam os cômodos da casa, lugares de conexão com o além-mundo. Pretende nos encantar com seus olhinhos azuis mareados. Gesticula as mãos, coloca o chapéu, segura o cigarro, arrasta a longa bata, dá dedo para o sistema literário.

A extensão experimental, com referências eruditas e vocábulos inusuais, pode tornar um pouco árdua e lenta a leitura da prosa, de pegada metafísica, marginal à tradição narrativa realista. O primeiro contato pode se dar, entretanto, pela poesia, mais acostumada com a palavra conotada. Aqui, Hilst nos envolve numa religiosidade amorosa, em misticismo mortal, sonhos queimando a pele. Com correção, os textos de publicidade da obra relacionam sagrado e profano.

A memória guarda algo dessa dualidade. Rasgar a palavra no presente, conservar o espelho do passado. Houve telefonemas antes, para agendar e confirmar: o medo do jovem repórter diante do mito. Houve uma chamada de reconhecimento depois (alívio). Ganhei uma edição das Bufólicas com ilustrações de Jaguar (Massao Ohno, 1991) e um autógrafo com “todo carinho” nas Cartas de um sedutor. Recebi, sobretudo, a recordação de um dia curto e longínquo.

“Fiquem um pouco mais.” Contudo, era preciso partir, pegar o asfalto, devolver o carro alugado. Mais de 20 anos depois, a impressão é de não ter deixado a poesia para trás. Ela acena, afaga a coleira do cão, ergue a taça em estrofe de despedida. Estou ainda ali. E será bom revê-la fantasmagórica nas calçadas incertas de Paraty. De longe, ouço na prosa de Don DeLillo em Ponto ômega (Companhia das Letras, 104 páginas) um rumor hilstiano: a plena consciência no deserto humano.



 


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