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É possível que eu tenha de ficar algumas semanas sem a coluna, em razão de uma viagem de trabalho. Para tentar compensar a provável ausência nas próximas quartas, preparei uma listinha de dez livros de poesia contemporânea que valem a leitura. Alguns não estão mais disponíveis, e você terá de procurar nos sebos. Vá por mim, o trabalho compensará! Adianto que a seleção não é exaustiva e há vários que poderiam estar estampados aqui, mas haverá outras oportunidades.

1. Começo com “Guardar”, do poeta carioca Antonio Cícero. Publicado pela Record, em 1996, o livro recebe o nome de um dos poemas da obra, lindo, completo: “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma”. Veja aqui na voz de Fernanda Montenegro. A obra, que tem uma versão em CD, recitada pelo próprio autor, ganhou o prêmio Nestlé de Literatura naquele ano.

Cícero é irmão da cantora Marina e o livro apresenta alguns poemas que você conhece como cações na voz de sua irmã e também na de Adriana Calcanhoto, como “À Francesa” e “Inverno“.

2. “Vívido”, do carioca radicado em Brasília, Pedro Amaral, publicado em 1995, pela 7 Letras, também é memorável. Amaral tinha apenas 21 anos quando lançou o trabalho, mas as composições são bem maduras. O livro teve prefácio de ninguém menos que Antonio Houaiss. O autor parou de publicar poesias há pelo menos dez anos e eu passei muito tempo sem saber que aquele meu amigo da Câmara tinha produzido um dos livros de poema de que mais gostei. Apenas no ano passado descobri que eram a mesma pessoa."

3. “O livro das semelhanças”, da mineira Ana Maria Martins, lançado em 2015, pela Cia das Letras, é outra obra que merece sua atenção. A poetisa coleciona prêmios, como da Fundação da Bilioteca Nacional, da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Cidade de Belo Horizonte, entre outros. “A Vida Submarina” e a “Arte das Armadilhas”, também de Ana Maria, são, igualmente, boas pedidas.

4. “Caçambas”, do poeta paulistano Ruy Proença, lançado em 2015, pela Editora 34, do qual já tratei aqui em outubro, é outra obra primorosa. Sexto título do poeta, o livro é carregado de imagens, tratadas com a primazia que a experiência esculpe.

5. “Falso Trajeto”, do também paulistano Fábio Weintraub, foi lançado em 2016, pela Patuá e reúne alguns poemas inéditos com uma compilação de poesias presentes em outras obras do autor. Weintraub ganhou com seu terceiro livro, “Novo Endereço”, os prêmios Casa de las Américas e Murilo Mendes. Teve alguns textos traduzidos e participa de diversas coletâneas de poesia brasileira contemporânea.

6. “Em alguma parte alguma”, do imortal Ferreira Gullar, lançado em 2010, pela José Olympio, lhe valeu mais um Jabuti para a coleção. O livro resgata vários dos temas presentes em sua vasta obra, como as peras e os galos, além da busca pelo limite da linguagem. Trata-se de uma obra prima, sem exagero.

7. “Toda Poesia”, do paranaense Paulo Leminski, lançado em 2013, pela Cia das Letras, foge um pouco o tom desta lista, já que se trata da obra completa, mas não daria para deixar de fora. Como o poeta faleceu precocemente, aos 45 anos, sua obra — apesar de muitos títulos — não é muito extensa, e foi organizada em volume único, imperdível. Vale a pena também dar uma olhada em algum dos mais de vinte livros de sua companheira, Alice Ruiz, que, em 2009, ganhou o Jabuti, com “Dois em Um”."

8. Também meio fora da curva é “Caderno de Poesias”, organizado por Maria Betânia, e publicado pela Editora da UFMG, em 2015. Trata-se de uma obra multimidiática, já que vem acompanhada de um DVD, com o espetáculo de mesmo nome, com suas interpretações dos textos de autoria de vários artistas, como Castro Alves, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Patativa do Assaré e Drummond, dentre tantos outros. É o resultado de um projeto extenso de leituras inicialmente intitulado “Sentimento do Mundo”. Imperdível.

9. Vale ver “139 Epigramas para Sentimentalizar Pedras”, do pensador português Boaventura de Sousa Santos, lançado em 2015, pela brasileira Confraria dos Ventos (a mesma que lançou Versos Pornográficos, de Chico César, finalista do Jabuti, em 2016). Trata-se de seu décimo livro de poemas, mas o primeiro a que tive acesso. Trata de questões sociais, poesia engajada, sem cair no panfleto. Aliás, bem longe disso. Diria que tem um quê de Ferreira Gullar. E isso é muita coisa.

10. Finalizo com “O Mundo à Solta”, do diplomata carioca Felipe Fortuna, lançado em 2014, pela TopBooks. O livro aborda uma série de facetas da vida moderna, das quais a mais colorida é certamente a barbárie, a falta — ou o excesso de humanidade — afinal a violência gratuita ou com preço determinado é humano, demasiadamente humano. Por baixo da tecnologia da guerra, sangue, carne e entranhas. Deleite-se.

Uma de Alice, para comemorar, para pensar e para compensar essa lista tão masculina…

Drumundana

E agora Maria?

O amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia.

E agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria.
Alice Ruiz, Navalhanaliga, 1980.



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