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Eu poderia estar comentando o Nobel do Bob Dylan, eu poderia estar criticando a Bienal do Livro e da Leitura de Brasília, eu poderia estar reclamando do fechamento de livrarias, mas não vou fazer nada disso, por ora. Vou comentar o mais instigante livro de poesia que li nos últimos meses, dentre tantos ótimos livros de poesia que li nesse período.

Trata-se de “Caçambas”, do poeta paulistano Ruy Proença, lançado pela Editora 34, em 2015, com apoio do Programa Petrobras Cultural. Proença foi um dos 17 selecionados para apoio à publicação, na categoria literatura, da edição de 2012 do programa. Dos contemplados, sete foram livros de poesia. No projeto inicial de Proença, constava apenas o “Singular Coletivo”, que se tornou a segunda seção das duas que compõem a obra.

“Caçambas” é o sexto título de Proença, e a experiência no versejo se apresenta expressamente, tanto na forma (o verso livre, ou verso branco, pode parecer simples, mas não é, porque exige o domínio completo das ideias-força e do ritmo), como na temática — que vai do prosaico cotidiano ao sentido da existência (ou a falta dele), sem perder o prumo ou fazer o leitor perder o fio da meada do poema.

São muitas as alegorias e remissões a outras obras e autores, mas sem se tornar pedante ou rebuscado, já que são encaixadas em seus devidos lugares, sem prejudicar a compreensão do poema. Isso, porque a poesia contida em “Caçambas” é sintética, direta e econômica, como manda o figurino da poesia contemporânea. E eu gosto desse figurino.

O poeta fez parte do Grupo Cálamo, núcleo de criação poética que funcionou em São Paulo, do fim da década de 1990 até o início dos anos 2000. Conheci-o nessa época. Desde então, sua poesia cresce constantemente. Em “Caçambas”, há a reunião dos temas que lhe são caros — a vida urbana (do motoboy, do aniversariante sozinho no bar, dos detritos no Rio Tietê, como no poema ao fim desta coluna); as contradições da política (da grande e da pequena); a esquisitice e solidão da vida moderna (como na vida do funcionário do cartório); e o fazer poético (o poeta tarja preta, o poeta faixa preta ou o louco da Santa Efigênia).

As cenas fugidias compõem grande parte da obra, pois o olhar atento vê poesia na viagem do trem urbano, no passarinho morto no asfalto e na pedra no rim. Talvez por isso, também, a primeira parte do livro seja intitulada “Rádio de Galena” (o aparato mais rudimentar com que se pode captar a frequência de rádio AM), já que, para um poema nascer, basta ampliar a mirada — sua grande antena — e deixar o som aparecer, sem precisar gastar energia, apenas regular a captação. De quebra, a crítica à modernidade e à tecnologia.

Outro tema recorrente é a morte, em suas mais variadas formas. Aliás, a morte está tão presente, que “Caçambas” também poderia se chamar “Terminal”. A libélula coberta de formigas, o passarinho estatelado e o onipresente suicídio marcam presença para ilustrar o mais respeitável dos momentos da existência: seu ponto final. A morte é respeitável. A morte — essa saída de emergência — é respeitada em “Caçambas”.

Os nomes têm uma participação especial no livro de Proença. Curtos e precisos. A maioria composta de apenas uma palavra, algumas duas. Raramente mais do que isso. Mas Proença vai além. Um poema se chama “A”, outro se chama “Re-“. Não se espante, fazem todo sentido quando lidos. Do nome “Caçambas”, já se falou que remete ao coletor de detritos e cacos, que, recuperados, formam um mosaico. Faz sentido.

Proença é engenheiro de minas e tem familiaridade com os elementos químicos, mas também com a química do poema. Aproveita-se das reações geradas pela combinação — e a ironia — de certos elementos e figuras: uma cena muda de cor, uma fumaça fugaz ou a liberação de calor, para criar orifícios, trancas ou janelas de sentido. Não raro, o último verso guarda um estampido, uma pequena explosão, como em “Museu Íntimo”, para aguçar sua curiosidade.

São mais de 75 poemas, em pouco mais de 140 páginas. Devorei em uma manhã, mesmo parando, retornando, relendo. Recomendo.

Para não falar que não falei do Nobel do Bob, registro apenas que, depois de achar que foi inovador, comecei a achar apenas estranho. Fico com a versão de um amigo: “Os velhinhos de Estocolmo quiseram um prêmio mais populista neste ano, mas não creio que vá ser algo que altere significativamente o modus operandi do Nobel. O prêmio dado, em 1997, ao italiano Dario Fo, que, aliás, morreu na semana passada, era para ser ainda mais ‘revolucionário’ do que o dado a Dylan, mas, no fundo, não significou nenhuma alteração substancial, como o do Dylan também não significará”. Faz muito sentido. Mas o que me chamou atenção mesmo é o fato de algumas pessoas acharem estranho que algumas outras tenham achado estranha a premiação.

Para não falar que não falei da Bienal, registro que, apesar de todas as críticas, e há muitas, especialmente a sobre a falta de desorganização e sobre o déficit de transparência, ela é uma festa da literatura da cidade, que precisa ser prestigiada. Eu mesmo estarei apresentando o “Terminal” quase todos os dias no evento, que começa nesta sexta-feira (21/10), e vai até o dia 30/10, no Mané Garrincha, incluindo um recital em dueto com a poetisa e atriz Raquel Ely, no sábado (22/10). A Bienal deste ano homenageia Boaventura de Sousa Santos e Adélia Prado.

Para não falar que não falei do fechamento de livrarias, fui ao Gama para procurar uma livraria para lançar o “Terminal”, e fui informado que a única livraria não religiosa da cidade fechou as portas neste mês. Mais uma que se vai. Uma pena.

Mobilidade

pedalando/na ciclovia
à margem do rio
aprecio/ a natureza
em todo o seu/esplendor

mentalmente/tiro o chapéu:
saúdo/cada ser/no caminho

bom dia,/capivara
bom dia,/vocês aí/tristes
parados como eu ontem
na estação de trem

olá, /aves aquáticas
olá, garça/olá, quero-quero
olá, pássaro-colchão
olá, pássaro-garrafa
olá, gaiola-sem- pássaro
olá, paturi-tampa- de-privada
olá, pássaro-geladeira

abro os pulmões/ e inspiro
o deus amoníaco
o deus-ureia/o deus-enxofre

e expiro expiro/um a um
meus sonhos de baunilha
recém saídos/ de sob o lençol

tenha fé/na vida

ave, máquinas/ave, operários
salve, construção civil –
mais pontes/mais passarelas
entre este/e o outro lado/ da vida

evoé, chuva fina
evoé, bailarina
evoé, íngreme escadaria
(agora/carrego eu/a bicicleta)

evoé, escritório
evoé, relatórios
evoé, fim de linha

evoé, aspirina

Ruy Proença (Caçambas, Editora 34, 2015)

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