Solidão que o vírus impõe a brasilienses é solidão sobre solidão

Na capital dos vazios e da sozinhez, o coronavírus nos insula como um pingo de terra no oceano. Demasiado desterro

Ilustração para coluna da Conceição Freitas: homem em frente à Catedral de BrasíliaCaio Ayres

atualizado 17/03/2020 9:40

Quando aqui cheguei, 35 anos atrás, a fama que corria era a de que Brasília era a capital do divórcio e da solidão. O quadradinho está, agora, em sétimo lugar no ranking das separações consensuais e judiciais, atrás de Rondônia, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Tocantins, Alagoas e Espírito Santo.

Se não é mais campeã de separações, o quadrado cristalizou a solidão, superpôs solidão sobre solidão. O vírus em forma de bolinha-porco-espinho reforça o que em nós, brasilienses, é quase atávico: a separação contínua dos corpos a uma distância superior ao metro e meio recomendado pelos protocolos sanitários.

Os candangos já nasceram porco-espinho. E pelo menos um meme já deu conta disso: um homem aliviado porque em Brasília ninguém cumprimenta, pega na mão, dá beijinho, dá abraço.

É trágico, mas é cômico. É real, mas surreal. Exceto no transporte coletivo, na Rodoviária, em algumas feiras, nos shoppings em fins de semana, nas festas e nos espetáculos, nós, brasilienses, percorremos o dia sem chegar perto de muita gente ao mesmo tempo. Até no cinema, a maior parte das sessões nos mantêm a uma distância superior à que faz o coronavírus cair no chão antes de nos alcançar.

Com o tempo, o brasiliense vai perdendo o jeito com gente. Qualquer aproximação a menos de um metro é um acontecimento, um assédio, uma invasão, tudo vai depender de como o sujeito lida com o outro.

Quando o poeta inglês John Donne (1572/1631) disse que nenhum homem é uma ilha, Brasília não existia nem em sonho. Somos um arquipélago de 3 milhões de ilhotas e quanto mais ricas as ilhas, mais isoladas umas das outras.

A solidão que a pandemia impõe aos brasilienses é solidão dobrada, posto que temos a nossa solitude atávica. E sobre as duas solidões, há aquela (inescapável) da condição humana. Não importa o quanto a gente esperneie, renegue, disfarce, ela está lá, coladinha na gente nem que seja só nos vinte minutos antes de pegar no sono. Ou na solidão cortante e atormentada da insônia. Ou naquela solidão eterna enquanto se espera o resultado de um exame com suspeita de doença grave. Ou a da morte diante de nós. Ou da dor que não pode ser nomeada. Não nos faltam solidões.

São tantas que uma a mais não faz muita diferença. E a de agora é por um motivo grave e ao mesmo tempo nobre, pois nos conduz de volta à humanidade quase esquecida. É um vírus que convoca a solidariedade — ele nos diz: ou nos protegemos uns aos outros ou nos matamos uns aos outros ou adoecemos uns com os outros.

Na capital dos vazios e das solidões, o vírus nos insula como um pires de terra no oceano. Demasiada solidão. Robson Crusoé tendo de inventar um Sexta-Feira.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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