A doméstica que não quer ir pra Disney. Quer ir pra Itália

Desde os 10, ela trabalha em casa alheia. Criou os dois filhos com o serviço doméstico e não permite que roubem seus sonhos

Conceição Freitas/MetrópolesConceição Freitas/Metrópoles

atualizado 15/02/2020 13:41

Ela me recebe com um bolo de fubá que fez na noite anterior, pra me receber, e café na garrafa térmica. A casinha de dois quartos, sala, cozinha, área de serviço e garagem fica num condomínio no Jardim Céu Azul, Valparaíso (GO), a 55 km do Plano Piloto.

Vera Cerqueira, tocantinense de Porto Nacional, trabalha de doméstica desde os 10 anos. Filha de um pintor e uma lavadeira, já trabalhou em mais de 100 casas, incluindo as em que foi diarista. A mãe morreu quando ela tinha 3 anos e Vera foi criada pela madrasta. Tem 47 anos, 35 deles trabalhando em casa de família e dois numa escola.

Quando contei a ela o que disse o ministro da Economia, Paulo Guedes (“Empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada”), Vera riu com sorriso de menina espantada. “Sério? Não vejo mais notícia. É tudo tão feio que deixei pra lá. Sério mesmo? Quem é ele para acabar com nossos sonhos? Ninguém tem esse direito.”

É bem verdade que a Disney não está nos devaneios de Vera. Se um dia puder, quer conhecer a Itália. “Vi na tevê. Um macarrão com a cara muito boa e vinho na mesa!”, ela põe a mão na boca e ri riso de quem parece não ter conhecido as amarguras da vida. No passaporte de Vera, guardado na memória, estão: Ouro Preto (MG) e Pirenópolis (GO), cidades que visitou com duas de suas patroas, das melhores, ela diz. E Belém, Redenção e Floresta (PA), cidades onde passou todo o ano de 2019, cuidando da filha de uma sobrinha.

Antes de começar a trabalhar em casa alheia, Vera ajudava a lavar, bater, torcer, enxaguar, pendurar as roupas das trouxas que a mãe lavava na casa das patroas. Quando não estava na escola, também ajudava a cuidar dos quatro irmãos menores, e cozinhava (subindo no banquinho), varria, lavava, arrumava.

Vera tinha 10 anos, mas parecia ter 7, quando entrou pela primeira vez numa casa para cuidar de duas crianças. “Elas tinham o meu tamanho. Eu achei aquilo tudo lindo. Eu ainda não tinha noção do que estava fazendo, parecia que eu ia pra brincar com elas. E brincava. E os brinquedos?! A sala tinha um tanto de coisa bonita!.”

Aos 13, como aconteceu com as duas irmãs mais velhas, arrumou o primeiro emprego de doméstica ainda em Porto Nacional. Fazia todo o serviço da casa e cuidava das crianças. Folga só depois do almoço de domingo para voltar na segunda-feira cedinho. Não poucas vezes, Vera trabalhava até onze, meia-noite. “Teve um dia que a mulher me mandou varrer o quintal, estava escuro e eu, menina, tive medo de bicho, de fantasma, mas tive de varrer.”

Aos 17 anos foi passar uns dias com a avó, que morava numa cidade “muito linda”. E dela nunca mais saiu.

Um ano depois estava casada e com uma filha. Dois anos depois, um filho. Com o fim do casamento, Vera criou as duas crianças sozinha, sem ajuda de pensão, só com o trabalho de doméstica. “Mas era outra coisa. Aqui, eu comecei ganhando muito mais do que ganhava em Porto Nacional. E tinha o sábado à tarde e o domingo todo pra mim, que maravilha!”

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Teve patrões bons e patrões ruins, porém a mais cruel das experiências foi com uma patroazinha de 7 anos de idade. Filha de família rica, a menina não gostava que Vera a levasse à escola, quando necessário. “Fica longe, não chega perto”, mandava. “Você não tem uma roupinha melhor do que essa, não?”, perguntou uma vez, passando entre os dedos o tecido da blusa da empregada.

“Tem gente que não gosta de dizer que é empregada, que é doméstica. Naquela época, a gente seguia a profissão da mãe. Se era doméstica, virava doméstica. Eu tenho orgulho. É o que sei fazer, foi com esse serviço que criei meus filhos. E eles estão bem. Já estão casados e empregados no comércio. A menina se formou em Radiologia, trabalhando de dia e estudando à noite. “Onze e meia, meia-noite, eu ia pro ponto de ônibus esperar por ela. A formatura dela foi muito linda!”. Os dois filhos moram perto da mãe.

Depois de 32 anos de trabalho, mais de 20 pagando aluguel, Vera comprou a casinha do Céu Azul pelo Minha Casa Minha Vida. “No tempo dos meus pais, a gente não tinha nada. Era só o trabalho. Agora o pobre tem bolsa escola, renda minha, minha casa minha vida.”

De volta a Brasília, Vera já está disponível para novos empregos. “Vou trabalhar enquanto puder e nunca vou deixar de sonhar.”

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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