Histeria, frescura, dentro e fora. Palavras para este tempo

O que eu preciso fazer e preciso que você faça: respira. Aceita. Se puder ajudar, ajuda. Mas fica em casa. Dentro de casa

bolsonaro histeria coronavirusArte: Gui Prímola/ Metrópoles

atualizado 20/03/2020 12:51

“Histeria”
Usaram muito essa palavra esses dias. Usaram, digo, o presidente usou.
Ele disse que se tratava de uma “histeria”.
Eu fui procurar o significado dessa palavra. Hysteris, no grego. Inicialmente, aplicado a sintomas convulsivos que pacientes mulheres relatavam começar no útero. Também pode ser usado como sinônimo de “pânico”. Ou como neuroses.

No sentido que o presidente usou, não é, acredite, nenhum desses conceitos.
Ele usou num outro sentido, o pior e mais irresponsável deles.

“Frescura”.

Esse é o significado, no Bolsonário, da palavra histeria.
Pra Bolsonaro, tudo é frescura. Se o filho é gay. Se o meio ambiente precisa de ajuda. Se direitos humanos precisam existir. Frescura.
Aquela boca larga, rindo como o Coringa de Jack Nicholson, sobre o desespero e a morte de milhares de inocentes.

Histeria, para o governo federal, é essa frescura que os cientistas, médicos, epidemiologistas estão tendo.

Daí tem de lavar as mãos. Mas não tem água no Complexo do Alemão. Em reportagem da jornalista Lola Ferreira, o ativista social Raull Santiago denuncia que no complexo de favelas onde ele mora, não tem água há 15 dias. Como lavar as mãos? Álcool em gel, também não há. Isolamento, sem condição. São 5 ou 6 numa mesma casa ou barraco. São 60, 70 barracos num quarteirão. Ao lado, sobrepostos. Sem esgotamento, sem saneamento. Calor, muito calor.

A Cufa anunciou medidas para prevenção nas periferias, para evitar a superlotação de postos de saúde e hospitais. Mas a Cufa está ciente do que vem por aí. Eu conversei com Preto Zezé, ativista e dirigente da Cufa. Zezé sabe que, se não nos unirmos, independentemente da ideologia, vamos ter um momento muito duro.

E o G-10, grupo formado por lideranças de 10 comunidades periféricas em todo o Brasil, disse, por meio de Gilson Rodrigues, liderança de Paraisópolis, que a periferia vai sofrer mais que todos os outros grupos.

O presidente, que vai fazer uma FESTA DE ANIVERSÁRIO amanhã, chama toda essa preocupação de histeria.

Frescura.

Eu nem quero falar dos números.
Hoje, precisei fazer terapia, em caráter emergencial.
Devo entrar em medicação.

Esta coluna quase não sai.
Pensei em ligar pra minha editora, e pedir desculpas, pular pra outra semana ou outro dia.

Eu nunca deixei de entregar coluna. Me “fiz” escritor nas redes sociais, escrevendo 2, 3 posts por dia, por uns 7 anos, se não me engano. Você escreve, e é julgado em minutos. Antes, meu perfil era pessoal, hoje, uma página pública.

É o quinto dia em casa. Grupo de risco. Agora, com estado de emergência em Portugal, não posso sair, a menos que seja para o hospital.

As ruas vazias. Daqui vejo, de tempos em tempos, alguém com uma máscara e seu cachorro. Um passeio rápido e voltam pra casa. Ninguém. Lojas de rua fechadas. E as que estão abertas serão fechadas obrigatoriamente.

Você pode dizer que é exagero. “Histeria”.
Abro as notícias, e leio que não há mais sepulturas na Itália.
Fecho o computador.

Não bastasse eu ter os meus problemas e decepções comigo mesmo, uma vontade de largar tudo e sumir, o problema é que agora não tem nem pra onde sumir, queridos.

Trabalhadores me escrevem relatando abusos. Empregadores não deixam eles voltarem pra casa. A Uninove, em São Paulo, não suspende as aulas e até professores e funcionários estão implorando para a reitoria liberar pra casa. Uma grande comoção e tragédia.

Muitas pessoas não deixaram a ficha cair. Muitas outras, se perguntando o que vai vir. Eu e muitos que estão lidando com as notícias, já sabemos o que vai vir. Qualquer vacina só ficará pronta pra vender daqui a um ano.

Eu decidi sentar aqui, respirar fundo e escrever esta coluna, como um desabafo.
O mundo como conhecemos, não existirá mais. Frase bonita, mas não licença poética. A Merkel fez um pronunciamento, o primeiro em 15 anos. Não preciso dizer mais nada.

Eu faço minhas orações pelos jornalistas. Lidando com crise política diária e crise global. Chegam em casa, tiram os sapatos, alguns nem dormem direito. Outros, medicamento pra dormir. O jornalista brasileiro é um forte.

Mas eu estou no futuro. Talvez não no futuro de onde veio o haitiano, com a maior tranquilidade, e disse: “Bolsonaro, acabou”. Ele falou como quem viu. Que coisa linda. Mas eu estou num futuro, entre vocês e ele. Eu, aqui em Lisboa, com a Itália numa distância equivalente a Rio e Brasília, estou no ponto daquele gráfico, lá no alto. E em breve o Brasil estará aqui.

O que eu preciso fazer e preciso que você faça:
Respira. Aceita.
Se puder ajudar, ajuda.
Se o que te resta é ficar sentado em casa, faça isso. E viva este momento, como der. Leia. Limpa o forno. Faxina na casa, aquelas faxinas de ano novo. Se desliga um dia inteiro das redes. Lembra do que éramos, 10 anos atrás. Dorme com a imagem de quando éramos mais felizes.

Mas fica em casa. Dentro de casa.
Fora, Bolsonaro.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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