Vulcão constrói nova plataforma costeira de 8 hectares

O vulcão Piton de la Fournaise despeja lava no Oceano Índico e constrói nova plataforma costeira

atualizado

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Ludovic Leduc – reprodução redes sociais
Imagem colorida da lava do vulcão Piton de la Fournaise - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida da lava do vulcão Piton de la Fournaise - Metrópoles - Foto: Ludovic Leduc – reprodução redes sociais

Segunda erupção de 2026 do maior vulcão ativo do Oceano Índico leva lava até o mar uma extensão de terra nova equivalente a oito campos de futebol e atrai milhares de espectadores na Ilha de Reunião

A segunda erupção do Piton de la Fournaise em 2026 transformou a costa da Ilha de Reunião entre março e abril. A lava cortou a famosa “Route des Laves” em 13 de março e alcançou o Oceano Índico três dias depois, construindo em menos de duas semanas uma plataforma costeira de 850 metros de comprimento por 150 metros de largura, totalizando 8,4 hectares de terra nova. O vulcanólogo Ludovic Leduc, autor do livro Les secrets de la Fournaise, registrou os momentos em campo e descreveu o processo em detalhes, da abertura do fluxo no alto da encosta até as línguas de lava entrando no mar.

Lava levou 34 dias para percorrer 8 quilômetros do cone até o oceano

A erupção começou a ganhar escala na noite de 3 para 4 de março, quando a lava cruzou o relevo conhecido como “cassé des Grandes Pentes”, um desnível de 1.200 metros. Foram seis dias para descer essa seção. Depois, mais três dias para cobrir os dois quilômetros até a rodovia nacional. Outros três dias e a lava chegava ao oceano, por volta de 16 de março.

Durante os primeiros 19 dias, o fluxo ficou concentrado na parte alta do Enclos Fouqué, a menos de 1.500 metros do cone. Os 6.500 metros restantes até o mar foram percorridos em 15 dias. A diferença de velocidade evidencia um túnel de lava bem formado e uma atividade eruptiva estável ao longo de todo o período.

A eficiência do túnel ficou clara em uma medição feita por uma pesquisadora no local: a temperatura da lava na beira do mar era de aproximadamente 1.130 °C, apenas 20 °C abaixo da temperatura registrada diretamente no cone eruptivo, a oito quilômetros de distância. O isolamento interno do túnel manteve a rocha fundida fluida durante todo o trajeto.

Plataforma cresceu por pressão lateral do oceano, não só pelo acúmulo frontal

Ao observar o crescimento dia a dia, Leduc notou que a nova plataforma não avançava apenas em direção ao mar: ela se alargava ao longo da antiga falésia costeira. A razão é física. A força das ondas cria resistência frontal, obrigando a lava acumulada a se expandir lateralmente. Em 24 de março, após nove dias de atividade costeira, a plataforma já media 850 metros de extensão com até 150 metros de largura.

O processo de construção não é apenas superficial. O campo de lava do tipo pāhoehoe, caracterizado pela superfície lisa e ondulada em forma de cordas, também se espessa por expansão interna. Em uma mesma área observada em dias consecutivos, o campo cresceu cerca de dois metros em espessura sem fluxo visível na superfície, apenas por pressão interna do material ainda quente.

Lave pāhoehoe: quando rocha fundida esculpe formas antes de solidificar

A lava pāhoehoe é um dos tipos mais fotogênicos produzidos por vulcões basálticos como o Piton de la Fournaise. Ao entrar em contato com a atmosfera, uma fina camada solidifica imediatamente na superfície enquanto o material ainda fluido continua se movendo por baixo. O resultado são estruturas que lembram cordas, almofadas inflando lentamente e tubos cilíndricos incandescentes.

Nas proximidades da floresta do Grand Brûlé, árvores consumidas pela lava deixaram moldes ocos, processo chamado de perimorfose. O material fundido envolve lentamente o tronco, a madeira queima, e a forma original fica preservada em rocha. A largura do campo de lava nessa área variava entre 50 e 70 metros, composto por dezenas de fluxos sobrepostos já solidificados.

No litoral, vaga cobre a lava e ela retorna por fraturas segundos depois

A interação entre lava e oceano produziu um dos fenômenos mais documentados por Leduc. Quando uma onda cobria o fluxo ativo na beira da plataforma, a rocha solidificava em segundos. Mas logo aparecia uma fratura na superfície recém-endurecida, e a lava incandescente reemergiu formando um novo lobo ativo. O avanço da plataforma se deu exatamente por essa sucessão de lobos efêmeros que se sobrepõem continuamente.

Nas noites mais frias, o contraste visual era extremo: lava amarela brilhante descendo em cascata sobre a falésia, vapor róseo suspenso sobre a plataforma e o som constante das ondas quebrando contra a rocha nova. Leduc descreveu a atmosfera como “um começo de mundo”. Milhares de moradores de Reunião compareceram ao local nas noites seguintes, transformando a chegada da lava ao mar em um evento coletivo na ilha.

Cone eruptivo projeta fontes de lava a 30 metros de altura a 2.000 metros de altitude

Antes de deixar a ilha, Leduc subiu até o cone eruptivo, localizado a cerca de 2.000 metros de altitude, partindo às três da manhã do Pas de Bellecombe-Jacob. O cone ativo media aproximadamente 25 metros de altura e projetava jatos de lava entre 20 e 30 metros acima da cratera de forma contínua. Com o amanhecer, a incandescência da lava foi progressivamente atenuada pelas cores do céu, criando uma sobreposição de tons que alternou laranja, vermelho e cinza.

A erupção de 2026 não atingiu a escala da de abril de 2007, considerada a maior do século no Piton de la Fournaise. Mas o alcance do fluxo até o litoral, a formação de uma nova plataforma costeira em menos de duas semanas e a temperatura mantida ao longo de oito quilômetros de túnel subterrâneo colocam este evento entre os mais relevantes dos últimos anos. O Observatório Vulcanológico do Piton de la Fournaise continua monitorando a atividade.

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