Vale da estranheza: conceito desafia a empatia e perturba o cérebro
Conceito proposto em 1970 sugere que animações ou robôs muito semelhantes aos humanos podem causar empatia ou repulsa e atrapalhar o cérebro

Em 1970, o engenheiro de robótica japonês Masahiro Mori propôs um conceito chamado vale da estranheza: quando um personagem de animação ou um robô tem características semelhantes às de um humano (como a forma de andar, o número de dedos e alguns detalhes no rosto), mas claramente não é um de nós, tendemos a ter mais empatia por ele. No entanto, a partir do momento em que essa semelhança passa a ser “perfeita demais”, porém com alguns defeitos artificiais, o comum é sentir estranhamento e até repulsa.
A ideia de Mori ainda é uma hipótese e nunca foi de fato comprovada cientificamente. No entanto, até os dias atuais, ela norteia a forma como as maiores produtoras de filmes criam suas obras.
“Quando assistimos a filmes de estúdios como Disney e Pixar, normalmente conseguimos criar uma empatia muito grande com os personagens justamente porque eles não tentam reproduzir um ser humano de forma absolutamente realista”, explica o neurocientista Leandro Freitas Oliveira, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam que ainda não há uma explicação definitiva sobre o que realmente causa as reações explicadas pelo vale da estranheza. No entanto, uma das hipóteses mais fundamentadas envolve o cérebro humano.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Nosso cérebro é altamente especializado em reconhecer rostos, expressões faciais e movimentos humanos. Fazemos isso de forma automática o tempo todo. Quando encontramos um personagem que parece humano, esperamos que todos esses sinais sejam coerentes; se há alguma discrepância, isso gera a sensação de que algo está errado”, afirma a psicóloga Flavia Marsola, do Hospital Brasília Águas Claras.
Atributos como olhos que não acompanham a expressão, o sorriso mecânico ou movimentos pouco naturais são responsáveis por causar inconsistências ao cérebro. Quando vemos expressões ou movimentos que não correspondem ao que esperamos, há um conflito entre o que o órgão previu e o que ele está vendo.
“Esse erro de previsão aumenta a atividade de redes cerebrais envolvidas no processamento social e emocional. Como consequência, surge uma sensação de estranheza e desconforto porque o cérebro não consegue classificar rapidamente aquilo que está vendo”, ensina Oliveira.
Hipóteses evolutivas podem explicar o vale da estranheza
Segundo os especialistas, o funcionamento do cérebro pode estar ligado à possibilidade de adaptações evolutivas ao longo do tempo. Há muito tempo, sem os mesmos recursos de hoje, nossos ancestrais utilizavam sinais visuais para prever doenças, risco de morte ou alterações físicas.
Com o tempo, a ação de reconhecimento de sinais foi adaptada. “Algumas características presentes em personagens quase humanos, como pele com aspecto estranho, olhar sem vida ou movimentos rígidos lembram, ainda que de forma inconsciente, esses sinais usados antigamente”, conta Flavia.
Outra hipótese é que o cérebro humano tenha evoluído para identificar com rapidez quem pertence ao nosso grupo e quem representa uma possível ameaça. Quando há “humanos artificiais” em filmes, fica mais complicado determinar a qual espécie ele pertence, elevando a sensação de alerta no corpo.
“Essas explicações são hipóteses apoiadas por diferentes estudos, mas ainda não existe uma resposta definitiva sobre a origem do fenômeno”, ressalta a psicóloga.
A IA pode ajudar a diminuir o desconforto do cérebro humano?
Com o avanço da inteligência artificial, a tendência é que a criação de personagens praticamente humanos se torne cada vez mais precisa, diminuindo os atributos que causam repulsa à nossa espécie.
Mesmo assim, como o nosso cérebro é extremamente sensível a qualquer imperfeição, por menor que seja, as tecnologias precisam ser muito refinadas para não causar estranhamento.
“O nosso sistema nervoso foi preparado justamente para observar e classificar rapidamente aquilo que está vendo. Superar completamente o vale da estranheza continua sendo um desafio tecnológico e, talvez, também um desafio para a própria neurociência”, pondera Oliveira.



