Três corações: especialistas esclarecem a anatomia incomum do polvo

Estrutura incomum do polvo ajuda a entender a inteligência, adaptação e evolução da natureza

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Foto colorida com zoom, de polvo de cor avermelhada - Metrópoles.
1 de 1 Foto colorida com zoom, de polvo de cor avermelhada - Metrópoles. - Foto: Freepik

O polvo é considerado um dos animais mais intrigantes do planeta — e essa fama não vem apenas do comportamento inteligente, mas de uma anatomia que foge completamente do padrão da maioria dos seres vivos.

Com três corações, sangue azul e um sistema nervoso espalhado pelo corpo, o molusco desenvolveu soluções biológicas únicas para sobreviver no ambiente marinho.

Essa estrutura incomum ajuda a explicar como o animal consegue realizar tarefas complexas, reagir rapidamente a estímulos e interagir com o ambiente de forma sofisticada.

Anatomia eficiente

O sistema circulatório do polvo funciona de maneira diferente da maioria dos animais. Em vez de um único coração, o corpo conta com três estruturas que atuam em conjunto.

O polvo tem um coração sistêmico e dois corações branquiais. Os dois branquiais bombeiam o sangue até as brânquias para oxigenação, enquanto o sistêmico distribui o sangue oxigenado para o corpo”, explica o professor de biologia Alisson Pedrosa, do Colégio Galois.

Essa divisão de funções permite uma circulação mais eficiente em ambientes com pouco oxigênio — algo comum em regiões profundas do oceano. Outro ponto curioso está na cor do sangue.

Diferentemente dos humanos, que utilizam hemoglobina rica em ferro, o polvo utiliza hemocianina, uma proteína que contém cobre.O cobre oxigenado reflete luz azul, por isso o sangue do polvo tem essa coloração”, diz Pedrosa.

Apesar de menos eficiente em temperaturas elevadas, a hemocianina funciona melhor em águas frias e com baixa concentração de oxigênio, o que representa uma adaptação direta ao habitat do animal.

polvo de duas manchas da Califórnia. Sexo dos polvos Encontrei este polvo-de-duas-manchas (Octopus bimaculoides) no recife em plena luz do dia. Poucos minutos depois, ele/ela encontrou um parceiro e desapareceu em um buraco no recife. Acho que queria privacidade.
Polvo usa tentáculos com autonomia para explorar o ambiente

Sistema nervoso espalhado pelo corpo

Se o sistema circulatório já chama atenção, o sistema nervoso do polvo é ainda mais incomum. O animal possui cerca de 500 milhões de neurônios — um número elevado para um invertebrado.

“Apenas um terço dos neurônios fica no cérebro central, os outros estão distribuídos pelos tentáculos. Na prática, cada tentáculo processa informações localmente, sem precisar consultar o cérebro para cada movimento”, explica Pedrosa.

Isso significa que os braços conseguem sentir, explorar e reagir ao ambiente de forma quase independente, o que torna o animal extremamente eficiente na interação com o meio.

O também professor de biologia do Colégio Galois, Victor Maciel descreve que a descentralização do sistema nervoso do polvo muda completamente a lógica de controle do corpo. Em vez de comandar cada movimento, o cérebro atua de forma mais estratégica.

“Os polvos contam com cerca de 500 milhões de neurônios capazes de realizar sinapses eficientes “Cerca de 60% deles estão nos tentáculos, o que aumenta a capacidade de resposta do animal”, explica Maciel.

Na prática, o cérebro define a intenção — como por exemplo capturar uma presa — enquanto os tentáculos executam a ação com ajustes em tempo real ao que acontece no momento.

Essa organização permite que diferentes tentáculos realizem tarefas simultâneas, sem a necessidade de comando central constante, algo raro no reino animal.

Corpo mole e movimentos altamente complexos

Outro fator essencial para entender o polvo é a ausência de esqueleto rígido. O corpo mole permite movimentos extremamente flexíveis, com praticamente infinitas possibilidades de dobra.

Ao contrário de animais com articulações definidas, que têm movimentos mais previsíveis, o polvo precisa controlar um número muito maior de variações motoras.

Para resolver esse desafio, o sistema nervoso distribuído atua como uma solução eficiente. Parte do processamento acontece diretamente nos tentáculos, reduzindo a sobrecarga do cérebro central.

Imagem colorida mostra um polvo camuflado no mar - Metrópoles
Os polvos tem alta capacidade de se camuflar no mar para escapar de predadores

Camuflagem e comportamento avançado

A anatomia do polvo também permite habilidades impressionantes, como a mudança rápida de cor e textura da pele.Esse processo ocorre por meio de estruturas ligadas ao sistema nervoso, que respondem quase instantaneamente aos estímulos do ambiente.

Além disso, estudos já identificaram comportamentos considerados complexos, como exploração, curiosidade e até padrões individuais de reação — características pouco comuns entre invertebrados.

A origem dessa anatomia incomum pode estar na história evolutiva do animal. Uma das hipóteses é que a perda da concha — comum em outros moluscos — tenha levado o polvo a desenvolver estratégias mais sofisticadas de sobrevivência.

“Uma hipótese é que a perda da concha aumentou a pressão seletiva. Com menor proteção física, o grupo precisou desenvolver outras estratégias para sobreviver”, explica Maciel.

Entre essas estratégias estão justamente a inteligência elevada, a flexibilidade corporal e a capacidade de resposta rápida. A combinação de três corações, sangue azul e um sistema nervoso distribuído faz do polvo um dos exemplos mais impressionantes de adaptação da natureza.

Mais do que uma curiosidade biológica, o animal mostra como a evolução pode seguir caminhos diferentes — e ainda assim altamente eficientes para garantir a sobrevivência.

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