Ponto G: pesquisa descobre como polvos fazem sexo no escuro total

Polvos machos usam receptores químicos de hormônios nos braços para localizar orifícios das fêmeas que servem para sexo e para respiração

atualizado

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Steven Trainoff Ph.D./Getty Images
polvo de duas manchas da Califórnia. Sexo dos polvos Encontrei este polvo-de-duas-manchas (Octopus bimaculoides) no recife em plena luz do dia. Poucos minutos depois, ele/ela encontrou um parceiro e desapareceu em um buraco no recife. Acho que queria privacidade.
1 de 1 polvo de duas manchas da Califórnia. Sexo dos polvos Encontrei este polvo-de-duas-manchas (Octopus bimaculoides) no recife em plena luz do dia. Poucos minutos depois, ele/ela encontrou um parceiro e desapareceu em um buraco no recife. Acho que queria privacidade. - Foto: Steven Trainoff Ph.D./Getty Images

O polvo é um animal que possui uma estrutura corporal difícil de entender para nós, humanos, especialmente em relação ao sexo. O animal, considerado extremamente inteligente, possui órgãos espalhados pelo corpo, incluindo um de seus braços que funciona como órgão reprodutor e também como um membro comum.

Pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, observaram que o polvo macho usa o braço especializado, visualmente igual aos outros sete, para encontrar a fêmea mesmo sem enxergá-la nas profundezas do oceano.

Segundo um artigo publicado para revisão de pares no bioRxiv, o hectocótilo (ou superbraço, como os pesquisados descreveram) possui receptores químicos capazes de detectar progesterona, o hormônio feminino.

O acasalamento de polvos ocorre à distância. O macho estica o hectocótilo até a cavidade da fêmea, a mesma utilizada para respirar, e deposita esperma no interior dela e sem auxílio visual. A busca às cegas intrigou pesquisadores por décadas. Descobrir o receptor de progesterona ali ajudou a entender o processo.

Sexo até no escuro

A investigação começou quando Pablo Villar, neurobiólogo da Universidade Harvard, tentou induzir a cópula entre dois polvos-da-califórnia mantidos em cativeiro. Fêmeas e machos demonstram agressividade no ambiente.

O pesquisador instalou uma divisória com pequenos orifícios para contato apenas com os braços. Mesmo sem precisar enxergar, o macho estendeu o hectocótilo por um dos furos e iniciou cópula.

Villar observou o mesmo comportamento em quatro pares adicionais de polvos que sempre achavam o ponto correto mesmo sem enxergar as parceiras. Daí veio a ideia de estudar como ocorria esse contato.

Villar instalou pequenos recipientes cônicos nos orifícios da divisória e adicionou substâncias distintas. O macho explorou intensamente o recipiente que continha hormônio sexual feminino. “Ficou claro que a progesterona era muito atraente”, afirmou ele em divulgação à imprensa.
Choco-gigante-australiano macho e fêmea, Whyalla, Austrália do Sul.
Forma que os polvos machos e fêmea se relacionavam era pouco compreendida

Química oculta nas ventosas

Exames celulares revelaram que o hectocótilo contém até três vezes mais receptores quimiotáteis do que braço normal. O membro possui também número ampliado de neurônios.

Ele possui formato semelhante aos demais. A diferença está em um canal que permite que o esperma deslize por ele quando se encontra a passagem adequada. Mesmo hectocótilos amputados de polvos e de lulas reagiram com vigor quando expostos à progesterona.

O neurobiólogo Roger Hanlon considera que o achado pode revelar um controle discreto do processo reprodutivo por parte de fêmeas, que com a sua produção hormonal permite aos machos “vê-las”.

Sem estarem estimuladas, as fêmeas diminuem a produção hormonal, além de terem a habilidade de fechar temporariamente o oviduto. Experimentos em laboratório reforçam essa hipótese. A equipe agora investiga como o braço interpreta as mudanças químicas e como isso pode revelar regras mais amplas da reprodução nos oceanos.

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