A tomografia vem revolucionando a forma de estudar fósseis. Entenda
Por meio da tomografia computadorizada, os especialistas conseguem analisar os fósseis com mais detalhes sem danificar sua estrutura
atualizado
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É normal que na área médica a tomografia computadorizada seja utilizada para identificar doenças, nódulos, fraturas ou até mesmo planejar cirurgias. Mas o exame de imagem, que funciona através de raios-X, tem sido usado além do ambiente hospitalar, mais precisamente em estudos de fósseis.
A lógica de uso é simples e não foge do habitual: assim como nos hospitais, os paleontólogos escaneiam os fragmentos históricos através de raios-X por vários ângulos e, a partir daí, o computador reconstrói as imagens em fatias digitais. Posteriormente, os registros são transformados em modelos tridimensionais, ajudando a visualizar a superfície e as estruturas internas do fóssil.
O mais importante de todo o processo é que o uso da tomografia permite analisar os materiais sem danificá-los, visto que são peças raras e, por vezes, frágeis.
“No estudo de fósseis muitos elementos importantes estão escondidos dentro da rocha ou do próprio osso fossilizado. Em muitos casos, podemos observar cavidades internas, canais vasculares, dentes ainda inclusos, ossos encobertos pela matriz rochosa ou detalhes anatômicos muito delicados que seriam difíceis — ou impossíveis — de acessar por preparação mecânica tradicional”, explica o paleontólogo Julian Silva Junior, da Universidade de São Paulo (USP).
Além disso, hoje em dia, os modelos tridimensionais gerados são digitais, facilitando a comparação e compartilhamento do achado com pesquisadores de todas as partes do globo. “[Esses dados] podem ser usados em análises biomecânicas, reconstruções anatômicas e estudos evolutivos”, diz Junior.
Outro ponto importante em relação aos modelos digitais é que eles ajudam a reconstruir partes ausentes do fóssil, tornando possível que os fragmentos sejam digitalizados inteiros. “Isso amplia muito as possibilidades de estudo”, destaca o paleontólogo Gabriel Ferreira, professor da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto (USP-RP).
O futuro do estudo de fósseis a partir da tomografia
O uso da tomografia computadorizada e microtomografia não são métodos totalmente novos na análise de fósseis e já são usados há cerca de 20 anos. A grande novidade é que a técnica tem se tornado cada vez mais eficiente ao acompanhar a evolução tecnológica da área.
O que era possível ver apenas de forma externa, agora com o avanço da tecnologia pode ser analisado internamente e os dados provenientes da investigação podem ser armazenados em bancos de informações valiosos.

“No futuro, essa tecnologia deve tornar as pesquisas cada vez mais integradas. Modelos digitais de fósseis podem ser usados para reconstruir organismos extintos em três dimensões, testar hipóteses sobre alimentação, locomoção e crescimento, e comparar formas anatômicas em uma escala muito maior”, avalia Junior.
Por outro lado, apesar da evolução, o método não substitui o trabalho do paleontólogo e sim ajuda a expandir a visão do profissional em busca dos mínimos detalhes.
Apesar dos benefícios, método também tem limitações
O uso da tomografia também passa por desafios, especialmente quando o fóssil é muito denso ou contém metais que atrapalham a obtenção de imagens com boa resolução. Além disso, a maioria dos tomógrafos conseguem analisar apenas fragmentos pequenos. Quando são grandes, os raios-X de hospital entram em ação, mas a qualidade do resultado fica menor.
Segundo Ferreira, ainda há fatores que aumentam a dificuldade para acessar o método, o que favorece o atraso de descobertas em potencial. “Em países da Europa, Estados Unidos e China, o acesso a tomógrafos é mais amplo. No Brasil, embora tenha havido avanços e existam equipamentos em algumas instituições, o uso ainda é limitado, principalmente por conta do custo elevado dos equipamentos”, ressalta.
Por fim, outro empecilho é o processamento dos dados após o escaneamento, que é bastante demorado e exige muito conhecimento, ou seja, mesmo com o avanço da tomografia e outras tecnologias, o trabalho de interpretação anatômica do paleontólogo continua sendo essencial.
