Volta à Lua: entenda quais são os riscos da viagem para o corpo humano

Com novas missões à Lua no horizonte, cresce a curiosidade sobre os impactos das viagens espaciais no corpo humano

atualizado

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Foto mostra a astronauta da NASA e engenheira de voo da Expedição 72, Anne McClain, é fotografada perto de um dos principais painéis solares da Estação Espacial Internacional durante uma caminhada espacial para modernizar o sistema de geração de energia da estação orbital e realocar uma antena de comunicações.
1 de 1 Foto mostra a astronauta da NASA e engenheira de voo da Expedição 72, Anne McClain, é fotografada perto de um dos principais painéis solares da Estação Espacial Internacional durante uma caminhada espacial para modernizar o sistema de geração de energia da estação orbital e realocar uma antena de comunicações. - Foto: Divulgação/Nasa

Mais de 50 anos depois da última missão tripulada à Lua, a Nasa se prepara para enviar astronautas novamente ao satélite natural da Terra. A missão Artemis II será o primeiro voo tripulado do novo programa lunar e deve levar a tripulação para contornar a Lua, ainda sem pouso. Na próxima viagem, há previsão de tentativa de retorno humano à superfície lunar.

Com a retomada dessas missões, cresce também a curiosidade para os efeitos que uma viagem além da órbita da Terra pode provocar no corpo humano.

Segundo o neurologista e neuroimunologista Thiago Taya, do Hospital Brasília Águas Claras, em Brasília, a microgravidade é um dos principais obstáculos fisiológicos para os astronautas. Na Terra, a distribuição dos fluidos corporais é influenciada pela gravidade, com maior pressão nos membros inferiores. No espaço, essa lógica se inverte.

“Na microgravidade, os fluidos se deslocam para a parte superior do corpo, aumentando a pressão na cabeça, o que pode gerar alterações como inchaço do nervo óptico, mudanças na visão e desconfortos em regiões como o tórax e os membros superiores”, diz.

Esse deslocamento também interfere no funcionamento do coração e pode alterar sentidos como paladar e olfato. Além disso, o especialista destaca que o ambiente espacial elimina a proteção natural oferecida pelo campo magnético da Terra.

Radiação e efeitos no cérebro

A exposição à radiação no espaço profundo é considerada uma das maiores preocupações em missões além da órbita terrestre. O professor de geobiologia Douglas Galante, do Instituto de Geociências da USP, explica que esse tipo de radiação é mais penetrante do que aquela à qual estamos expostos no dia a dia.

“No cérebro, ela pode danificar neurônios e estar associada a problemas de memória, dificuldade de concentração e alterações na tomada de decisão”, diz o pesquisador apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

Estudos também indicam que a radiação pode acelerar processos neurodegenerativos, com efeitos que vão além do sistema nervoso.

“No organismo como um todo, há aumento do risco de câncer, catarata e doenças cardiovasculares. É como se o corpo passasse por um envelhecimento acelerado”, resume Galante.

Ossos, músculos e coração sentem rápido

Mesmo missões relativamente curtas já provocam mudanças significativas no corpo. De acordo com Galante, a perda de densidade óssea pode chegar a até 2% por mês no espaço, um ritmo comparável a anos de osteoporose na Terra.

“Especialmente pernas e costas, que deixam de sustentar o peso do corpo. Em alguns casos, a perda de massa muscular pode chegar a 20%”, destaca.

O sistema cardiovascular não fica imune. Sem a necessidade de bombear sangue contra a gravidade, o coração passa a trabalhar menos. Na volta à Terra, isso pode causar tonturas e até desmaios ao ficar em pé.

Isolamento e saúde mental

Além dos efeitos físicos, o confinamento prolongado e o isolamento extremo impõem desafios psicológicos importantes. Galante explica que viver por meses em um espaço reduzido, sem ciclos naturais de dia e noite, afeta o sono, o humor e a concentração.

“Ansiedade, irritabilidade e conflitos entre a tripulação são comuns. A comunicação com a família também sofre atrasos, o que pode aumentar a sensação de distanciamento da vida na Terra”, diz.

Há ainda mudanças cognitivas associadas ao ambiente espacial e ao que os especialistas chamam de “efeito overview”, uma transformação profunda na percepção ao observar a Terra à distância.

Como os astronautas se preparam?

Para enfrentar esses desafios, a preparação começa muito antes do lançamento. O neurologista Taya explica que os astronautas passam por avaliações médicas, neurológicas e psicológicas rigorosas, além de treinamentos em ambientes que simulam a microgravidade, como piscinas de grande profundidade.

“O exercício físico constante é fundamental. Ele ajuda a preservar ossos, músculos e o sistema cardiovascular, compensando a falta de esforço imposta pela microgravidade”, afirma o neurologista.

Durante a missão, a rotina inclui cerca de duas horas diárias de exercícios, alimentação cuidadosamente planejada e monitoramento contínuo dos sinais vitais. Há ainda áreas da nave com maior blindagem para reduzir a exposição à radiação e acompanhamento psicológico à distância.

Apesar dos riscos, Galante ressalta que a ciência tem avançado rapidamente para tornar essas viagens mais seguras. “Para muitas tarefas, ainda não há substituto para o ser humano. As missões tripuladas seguem sendo fundamentais para a exploração espacial”, finaliza.

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