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Piscar menos pode indicar maior esforço mental, aponta estudo

Pesquisa canadense sugere que a frequência das piscadas acompanha o nível de atenção exigido pelo cérebro em situações desafiadoras

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Trends in Hearing
Configuração experimental mostrando o equipamento de rastreamento ocular e o ambiente de teste. Metrópoles
1 de 1 Configuração experimental mostrando o equipamento de rastreamento ocular e o ambiente de teste. Metrópoles - Foto: Trends in Hearing

A expressão popular “nem pisca de tão concentrado” pode ter base científica. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Concordia, no Canadá, indica que a frequência das piscadas diminui à medida que o esforço mental aumenta, principalmente em situações que exigem atenção para compreender a fala em ambientes barulhentos.

O trabalho, publicado em 5 de setembro na revista científica Trends in Hearing, analisou como o piscar dos olhos varia conforme a dificuldade da tarefa auditiva e mostrou que, quanto maior a demanda cognitiva, menos as pessoas piscam, de forma automática e sem perceber.

A pesquisa partiu da investigação sobre o papel do piscar no processamento de informações. Os cientistas quiseram entender se o reflexo está restrito à lubrificação dos olhos ou se também acompanha mecanismos ligados à atenção, ao foco e à filtragem de estímulos irrelevantes.

Quando o cérebro precisa focar mais

Os pesquisadores conduziram dois experimentos com cerca de 50 adultos. Em uma sala à prova de som, os participantes mantinham o olhar fixo em uma cruz na tela enquanto ouviam frases curtas por fones de ouvido. O grau de dificuldade mudava de acordo com o ruído de fundo, exigindo mais concentração em algumas situações.

Com óculos de rastreamento ocular, a equipe acompanhou cada piscada ao longo do teste. Durante a escuta das frases, sobretudo quando o barulho dificultava a compreensão, o número de piscadas diminuía de forma clara. Antes e depois da fala, esse ritmo voltava a aumentar.

Os resultados indicam que o cérebro reduz o piscar nos momentos em que precisa captar informações essenciais. Para os autores, é como se o sistema nervoso tentasse evitar qualquer interrupção sensorial quando o processamento da informação se torna mais exigente.

Para garantir que o efeito não estivesse relacionado à iluminação do ambiente, um segundo experimento repetiu os testes sob diferentes níveis de luz. O comportamento se manteve, reforçando a conclusão de que não é a luminosidade que interfere no piscar, mas a carga cognitiva da tarefa.

Apesar de grandes variações individuais, que iam de cerca de 10 a 70 piscadas por minuto, todos os participantes piscavam menos quando o esforço mental aumentava.

“Não piscamos aleatoriamente. Na verdade, piscamos sistematicamente menos quando informações relevantes são apresentadas”, afirmou Pénélope Coupal, principal autora do estudo e aluna de honra do Laboratório de Audição e Cognição, em comunicado.

O que as piscadas revelam sobre o esforço mental

Geralmente, estudos sobre atenção usam a dilatação da pupila como principal indicador do esforço cognitivo, enquanto as piscadas costumam ser tratadas apenas como ruído nos dados. Neste trabalho, porém, os pesquisadores inverteram a lógica e passaram a observar justamente esse reflexo, reanalisando registros de pupilometria com foco no padrão das piscadas.

A explicação proposta pelos pesquisadores é que cada piscada interrompe, ainda que por instantes, a entrada de estímulos visuais e auditivos. Em situações que exigem maior atenção, o cérebro reduziria esse reflexo de forma automática, como uma estratégia para não perder informações relevantes.

Agora, a equipe busca entender com mais detalhe em que momento e de que forma essas pequenas perdas acontecem durante uma piscada. Se os resultados se confirmarem em novos estudos, a descoberta pode ter aplicações práticas em áreas como educação, saúde e comunicação, além de contribuir para o desenvolvimento de tecnologias capazes de monitorar atenção e fadiga mental fora do laboratório.

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