O que acontece com a parte da nave que será descartada da Artemis II?
Um módulo da nave espacial Orion será descartado antes da reentrada por segurança dos tripulantes
atualizado
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A volta dos astronautas da missão Artemis II à Terra nesta sexta-feira (10/4) marca o fim de uma jornada histórica ao redor da Lua. Porém, algo fica para trás.
Nem toda a nave retorna com a tripulação. Uma parte importante da espaçonave fica pelo caminho, sendo descartada propositalmente antes da reentrada na atmosfera terrestre.
A decisão não é acidental e envolve engenharia, segurança e até prevenção de lixo espacial. Segundo o doutor em engenharia aeroespacial da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Gustavo Luiz Olichevis Halila, apenas a cápsula onde os astronautas viajam foi projetada para suportar o retorno.
Por que nem toda a nave volta?
Na missão Artemis II, a espaçonave Orion é dividida em duas partes principais: o módulo tripulado (crew module) e o módulo de serviço (ESM), responsável por fornecer energia, propulsão e suporte ao sistema.
O módulo de serviço é descartado pouco antes da reentrada. A principal razão é técnica: apenas a cápsula possui escudo térmico capaz de resistir ao calor extremo gerado ao entrar na atmosfera em velocidades próximas a 40 mil km/h.
Além disso, trazer toda a estrutura de volta exigiria uma nave muito mais pesada e complexa. “Trazer de volta estruturas como o módulo de serviço exigiria um escudo térmico muito maior e mais pesado”, explica Halila. A escolha segue uma lógica já usada nas missões Apollo, que prioriza segurança e eficiência.
O que acontece com a parte descartada?
Segundo o especialista, após a separação, o módulo de serviço não fica vagando no espaço. A estrutura segue uma trajetória natural que a traz de volta à atmosfera terrestre, onde é completamente destruída pelo calor da reentrada. O processo é planejado justamente para evitar que a peça se transforme em lixo espacial.
Halila enfatiza que a própria dinâmica da missão resolve o destino da estrutura. Como a nave vem de uma trajetória ao redor da Lua, a energia orbital faz com que o módulo descartado retorne à Terra sem necessidade de manobras adicionais.

Pode parecer desperdício descartar parte da nave, mas a escolha é estratégica. Do ponto de vista da engenharia aeroespacial, transportar massa extra durante toda a missão aumenta o consumo de combustível, exige foguetes mais potentes e reduz a margem de segurança.
Além disso, o módulo de serviço não foi projetado para resistir às condições extremas da reentrada. Sem proteção térmica adequada, ele não suportaria o processo.
“Tentar recuperar toda a nave aumentaria significativamente os riscos térmicos e estruturais”, afirma Halila.
Existe risco de lixo espacial?
No caso da Artemis II, o risco é praticamente inexistente. Como o módulo descartado não permanece em órbita, mas sim retorna e se desintegra na atmosfera, não há formação de detritos espaciais. O problema do lixo espacial é mais crítico em órbita próximas da Terra, onde há grande concentração de satélites.
Halila ressalta que missões lunares operam em trajetória que não ficam “presas” ao redor do planeta, o que reduz muito o risco de colisões futuras. Além disso, há diretrizes internacionais que orientam o descarte seguro de estruturas espaciais, evitando a criação de novos detritos.
No futuro existirão naves reutilizáveis?
Apesar de a Artemis II ainda seguir um modelo com partes descartáveis, o cenário deve mudar. O especialista diz que há uma tendência crescente de desenvolver naves reutilizáveis e criar estruturas permanentes no espaço, como estações intermediárias e sistemas de reabastecimento em órbita. No entanto, na fase atual do programa Artemis, a prioridade ainda é garantir confiabilidade e segurança.
