Vida no espaço: veja mitos e verdades sobre o trabalho dos astronautas
Da microgravidade à rotina rígida, especialistas explicam o que é real e o que é exagero sobre viver e trabalhar fora da Terra
atualizado
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Ser astronauta é um sonho comum na infância e continua despertando fascínio mesmo na vida adulta. Filmes e séries ajudaram a criar uma imagem heroica das missões espaciais mas, longe da ficção, a rotina fora da Terra envolve ciência, disciplina e desafios físicos e mentais que nem sempre aparecem nas telas.
Entre mitos populares e fatos pouco conhecidos, especialistas ouvidos pelo Metrópoles explicam o que realmente faz parte do cotidiano de quem trabalha no espaço.
Mais altos no espaço?
Um dos fatos mais curiosos das missões espaciais é que astronautas realmente ficam alguns centímetros mais altos durante a permanência no espaço. Em microgravidade, a coluna vertebral deixa de ser comprimida pelo peso do corpo, o que faz com que os discos entre as vértebras se expandam.
Esse alongamento, porém, não é apenas uma curiosidade. Segundo Nicolas Guallan, engenheiro de software e gerente operacional da Space Adventure, ele costuma vir acompanhado de desconfortos reais, especialmente nos primeiros dias da missão.
“Esse processo pode fazer o astronauta crescer de três a cinco centímetros temporariamente e costuma causar dores nas costas no início da permanência no espaço”, explica.
Na volta à Terra, o corpo passa por uma adaptação inversa. A gravidade volta a comprimir a coluna, o que pode gerar novo desconforto e aumentar temporariamente o risco de lesões. “Por isso, os astronautas mantêm rotinas rigorosas de exercícios durante a missão e passam por um processo cuidadoso de readaptação após o pouso”, completa.

Exercício físico é obrigatório no espaço
Manter o corpo saudável em microgravidade exige esforço diário. Para evitar a perda de massa muscular e óssea, os astronautas seguem uma rotina intensa de exercícios.
O professor Alexandre Bergantini, do observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (OV-UFRJ), explica que essa exigência é resultado de décadas de pesquisa.
“Hoje se sabe que são necessárias cerca de duas horas diárias de atividade física intensa, com equipamentos de resistência, esteiras e bicicletas adaptadas, para substituir a carga mecânica que a gravidade fornece na Terra”, diz o pesquisador, que é apoiado pelo Instituto Serrapilheira.
Além do exercício, a alimentação é cuidadosamente planejada para garantir ingestão adequada de proteínas, vitaminas e minerais. O sono também segue horários rígidos, com controle de luz e rotinas pensadas para preservar o ritmo biológico e o desempenho cognitivo.
Água reciclada da urina e silêncio absoluto são reais
Outra verdade que costuma causar estranhamento é o consumo de água reciclada a partir da urina, do suor e até da umidade do ar. Na estação espacial, praticamente toda a água é reaproveitada.
“A água reciclada passa por um sistema altamente sofisticado de filtragem e purificação. Urina, suor e até a umidade do ar são coletados, destilados, filtrados e tratados quimicamente para remover impurezas, bactérias e contaminantes. Antes de ser consumida, ela é constantemente monitorada e atende padrões de potabilidade extremamente elevados”, detalha Nicolas.
Já as explosões barulhentas vistas no cinema não existem no espaço. Como o som precisa de um meio material para se propagar e o ambiente espacial é um vácuo, não há ruído algum fora das estruturas pressurizadas.
Basta ser muito inteligente para virar astronauta?
Outro mito comum é a ideia de que basta ser extremamente inteligente para virar astronauta. A realidade é bem mais complexa.
“Inteligência é fundamental, mas está longe de ser suficiente. As agências espaciais valorizam muito a capacidade de trabalhar em equipe, o controle emocional, a comunicação clara e a tomada de decisão sob estresse. Afinal, são meses em um ambiente confinado, isolado e de alto risco”, destaca Nicolas.
Do ponto de vista físico, não é necessário ser um atleta de elite, mas boa saúde geral e condicionamento são indispensáveis para suportar as exigências da missão.
Saúde monitorada o tempo todo
Durante as missões, a atenção à saúde é constante. Segundo Alexandre, a Nasa acompanha em tempo real diversos parâmetros dos astronautas. “São monitoradas alterações cardiovasculares, perda óssea e muscular, exposição à radiação, função imunológica, mudanças na visão e saúde comportamental”, afirma.
Esse acompanhamento é feito com sensores vestíveis, exames realizados a bordo, coleta de amostras biológicas e comunicação contínua com médicos em solo.
O retorno à Terra também exige cuidado
Voltar ao planeta não significa que o corpo esteja pronto para retomar a rotina imediatamente. A reentrada é fisicamente exigente e requer acompanhamento prolongado.
“Os astronautas passam por recondicionamento cardiovascular, fortalecimento muscular, terapia de equilíbrio e monitoramento da densidade óssea”, explica Alexandre. Em missões longas, esse processo pode durar meses ou até anos.
Alguns efeitos podem ser permanentes, especialmente na visão. A microgravidade favorece o deslocamento de fluidos para a cabeça, aumentando a pressão nos olhos e podendo causar alterações visuais duradouras, além dos riscos associados à radiação.
Menos glamour e mais ciência
Para Nicolas, um dos mitos que mais atrapalham a compreensão do público é a ideia de que a vida no espaço é sempre emocionante.
“O trabalho é altamente técnico, muitas vezes repetitivo, e exige disciplina constante. A ciência mostra que o corpo não se adapta perfeitamente ao espaço e precisa de monitoramento contínuo”, finaliza.
