Criosfera 1: missão brasileira monitora clima extremo na Antártica

Base brasileira autossustentável em uma das áreas mais inóspitas do mundo recebeu o ator Will Smith durante gravação da série Pole to Pole

atualizado

metropoles.com

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Reprodução / Missão Criosfera1
Foto colorida de um laboratório brasileiro de cor vermelha, situado em um campo deserto na Antártica - Metrópoles.
1 de 1 Foto colorida de um laboratório brasileiro de cor vermelha, situado em um campo deserto na Antártica - Metrópoles. - Foto: Reprodução / Missão Criosfera1

Instalado em uma das regiões mais remotas e menos monitoradas da Antártica Ocidental, o Criosfera 1 é um laboratório científico brasileiro dedicado a entender como o aquecimento global está afetando o gelo, a atmosfera e a dinâmica climática do continente. O ambiente extremo chamou atenção inclusive do ator Will Smith, que gravou um episódio da série Pole to Pole na base brasileira.

Coordenada por pesquisadores brasileiros, a iniciativa integra o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e se diferencia por funcionar longe das estações científicas tradicionais.

O objetivo é justamente monitorar uma área pouco impactada pela presença humana direta, ampliando a qualidade e a representatividade das medições.

Foto colorida de três homens dois usando casaco vermelho e um usando um casaco amarelo - Metrópoles.
Ator americano Will Smith e os pesquisadores brasileiros Franco Nadal Junqueira Villela (meteorologista) e Heber Reis Passos (técnico de laboratório eletrônico sênior), na Antártica

Laboratório autossustentável na Antártica

Apesar de ser chamado de missão, o Criosfera 1 é, na prática, um laboratório permanente. As equipes chegam ao local apenas durante o verão antártico para realizar manutenção, trocar equipamentos e calibrar sensores. No restante do ano, a estrutura segue operando de forma automática.

Segundo o físico Heitor Evangelista da Silva, coordenador-geral do projeto e professor da universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o laboratório foi concebido desde o início como uma instalação autossustentável.

“O Criosfera 1 não utiliza combustível fóssil. Ele opera com painéis solares durante o verão e pequenas turbinas eólicas no inverno, o que reduz o impacto ambiental da pesquisa científica em um continente extremamente sensível”, explica.

Essa característica fez com que a mais recente expedição se tornasse a primeira missão científica brasileira na Antártica com neutralização total das emissões de carbono, incluindo as geradas pela logística de transporte até o local.

O que é pesquisado no Criosfera 1

O laboratório realiza o monitoramento contínuo de 32 parâmetros ambientais. Entre eles estão temperatura do ar, pressão atmosférica, velocidade e direção do vento, radiação solar, níveis de ultravioleta (UVA e UVB), ozônio de superfície, dióxido de carbono (CO₂), deposição de neve, aerossóis atmosféricos, carbono negro e raios cósmicos.

Esses dados ajudam os cientistas a compreender, por exemplo, como os chamados rios atmosféricos — massas de ar quente e úmido vindas das regiões tropicais — contribuem para a perda de gelo na Antártica.

Outro foco central é o acompanhamento da recuperação da camada de ozônio, já que o laboratório está localizado sob a área de influência do antigo buraco de ozônio.

“O que medimos ali alimenta modelos climáticos que permitem prever a perda de massa de gelo e a elevação do nível do mar”, afirma Evangelista. Segundo ele, essas projeções são fundamentais para países com extensas áreas costeiras, como o Brasil.

Foto colorida de laboratório de pesquisa brasileiro na Antática - Metrópoles.
Laboratório Criosfera 1, instalado em uma região remota da Antártica

Rotina em condições extremas

A manutenção do Criosfera 1 exige uma logística complexa. Os pesquisadores montam um acampamento avançado ao redor do módulo científico, com barracas de dormitório, cozinha e banheiro.

O trabalho externo só é realizado quando o vento está abaixo de determinados limites, já que a sensação térmica pode cair drasticamente. O técnico de laboratório eletrônico sênior Heber Reis Passos, integrante da missão, explica que boa parte do esforço é dedicado à energia e à transmissão de dados.

“O sistema prioriza automaticamente os equipamentos mais importantes quando a energia diminui. Sensores essenciais, como os de meteorologia e CO₂, permanecem funcionando mesmo em períodos críticos”, detalha.

Desde 2012, a estação meteorológica do Criosfera 1 transmite dados regularmente para redes internacionais, como a Organização Meteorológica Mundial, garantindo séries históricas contínuas mesmo durante o inverno antártico.

Will Smith na base brasileira

No meio desse ambiente extremo e altamente técnico, o Criosfera 1 também chamou atenção do público internacional. O ator Will Smith visitou a base brasileira durante a missão e gravou imagens para a série documental Pole to Pole.

A produção acompanha a jornada do artista do Ártico à Antártica, explorando os impactos das mudanças climáticas nos polos do planeta. A gravação no Criosfera 1 ajudou a mostrar, para uma audiência global, como funciona a ciência feita em um dos lugares mais inóspitos do mundo e qual é o papel do Brasil nesse esforço internacional.

Para os pesquisadores, a visibilidade trazida pela série não muda o foco do trabalho, mas reforça sua importância. O que acontece na Antártica influencia diretamente o clima do Hemisfério Sul, o regime de chuvas na América do Sul e o futuro das zonas costeiras.

“O Criosfera 1 nos permite entender processos que não são locais, mas globais”, resume Evangelista.

Em um continente onde cada dado exige planejamento extremo e tecnologia robusta, o laboratório brasileiro segue operando como um observatório estratégico do clima da Terra.

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