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Ciência

Herbicida popular pode tornar bactérias mais resistentes, diz estudo

Além do uso de herbicidas, a resistência antimicrobiana também é atribuída a utilização indiscriminada e inadequada de antibióticos

23/06/2026 12:26, atualizado 23/06/2026 12:29
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Imagem colorida mostra homem utilizando pesticida - Metrópoles

O glifosato, um dos herbicidas mais usados no Brasil e no mundo para controle de ervas daninhas, pode estar promovendo mutações genéticas em bactérias, deixando-as mais resistentes a antibióticos. Atualmente, estima-se que a resistência antimicrobiana é responsável por cerca de 1,1 a 1,4 milhão de óbitos por ano em todo o globo.

Geralmente, o problema é atribuído ao uso indiscriminado e inadequado de antibióticos, porém um novo estudo internacional identificou a contribuição dos herbicidas. O achado foi liderado pela pesquisadora Daniela Centrón, do Instituto de Microbiologia Médica e Parasitologia de Buenos Aires, na Argentina. Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Microbiology em março.

“Mostramos que as espécies mais comuns de bactérias multirresistentes isoladas de hospitais não são apenas resistentes a classes de antibióticos, mas também a altas concentrações do herbicida glifosato. Os resultados sugerem que os herbicidas – ao contrário dos antibióticos, são amplamente aplicados em ambientes agrícolas – podem ter o efeito colateral não intencional de selecionar a resistência antimicrobiana entre as comunidades bacterianas do solo”, afirma Daniela, em comunicado.

Efeito do herbicida nas cepas bacterianas

A fim de investigar se os herbicidas provocavam resistência antimicrobiana, foram analisadas 68 cepas bacterianas coletadas em uma reserva natural na Argentina, local onde não foi aplicado o glifosato, embora fique próxima a áreas agrícolas que utilizam o produto.

Posteriormente, os pesquisadores analisaram a resistência de todas as 16 cepas de antibióticos de uso comum e a de herbicidas de glifosato puro ou produzidos à base dele. Em seguida, os resultados foram comparados a 19 cepas bacterianas de hospitais e 15 provenientes de confinamentos de gado e solos agrícolas onde há o uso de herbicidas. Entre os principais achados estão:

  • Todas as cepas hospitalares tiveram alta resistência a herbicidas de glifosato puro ou produzidos à base dele;
  • 74% eram resistente a carbapenêmicos, uma classe de antibióticos utilizada como último recurso em caso de infecções graves;
  • Das 68 cepas coletadas na reserva natural, todas apresentaram ao menos algum grau de resistência ao glifosato e herbicidas à base dele, mesmo o produto nunca tendo sido aplicado no local.

“Isso significa que, se essas bactérias entrarem no meio ambiente por meio de águas residuais não tratadas de hospitais, elas poderão proliferar em áreas agrícolas onde o glifosato é utilizado“, alerta uma das autoras do estudo, Camila Knecht.

Também foi produzida pelos cientistas uma árvore genealógica com a genética de todas as cepas analisadas. Com o resultado, foi identificado que grande parte das bactérias resistentes ao glifosato eram parecidas geneticamente, independente de onde vieram.

“Bactérias portadoras de genes de resistência a antibióticos podem se espalhar e se reproduzir entre esses dois nichos em ambas as direções e de múltiplas maneiras, com o ciclo da água desempenhando um papel fundamental na transmissão”, diz o coautor, Jochen A. Müller.

Segundo os pesquisadores, os resultados evidenciaram a importância da regulamentação dos pesticidas ser baseada também no efeito de resistência que eles provocam nas bactérias.