Genética do bicho-preguiça pode ajudar a entender doenças humanas
Segundo os pesquisadores, o mecanismo genético do bicho-preguiça dá pistas sobre como problemas na produção de energia acontecem em doenças

Conhecido pela lentidão, o bicho-preguiça possui um adaptação genética para se manter saudável mesmo com o corpo produzindo pouca energia para funções importantes, como sustentar a saúde muscular e manter a temperatura corporal. Segundo os pesquisadores, o segredo do animal está nos “genes saltadores”.
Dentro do corpo, a energia para as mais diversas atividades fica armazenada nas mitocôndrias, uma organela localizada dentro das células. No caso do bicho-preguiça, foi descoberto que o sistema mitocondrial era “relaxado” devido a seu estilo de vida peculiar. Porém, por meio dos genes saltadores, que conseguem mudar de posição dentro do genoma ou fazer cópias de si mesmos, os animais conseguiram sobreviver e evoluir mesmo com o sistema energético bem mais lento.
“Nossos resultados sugerem que os bichos-preguiça podem ter desenvolvido ‘sistemas de reserva’ genéticos que ajudam a compensar suas ‘mitocôndrias relaxadas’ e a sustentar seu estilo de vida único“, explica uma das autoras do estudo, Camila Mazzon, do Instituto Leibniz de Pesquisa Zoológica e da Vida Selvagem, na Alemanha, em comunicado.
Além da entidade alemã, o trabalho teve a participação de outras instituições, incluindo do Centro de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Os resultados foram publicados na revista BMC Biology em meados de maio.
Bicho-preguiça pode ajudar no tratamento de doenças humanas
Para chegar aos achados, foram analisados dados genéticos da preguiça-de-dois-dedos (Choloepus didactylus), que foram posteriormente comparados a informações de outros mamíferos, como tamanduá e o tatu. Segundo os resultados, as baixas necessidades energéticas celulares das preguiças evidenciaram o papel dos genes saltadores para a sobrevivência do animal.
Os pesquisadores avaliam que a descoberta do mecanismo pode ter implicações para os humanos. Doenças como diabetes, problemas ligados ao envelhecimento, neurodegeneração e atrofia muscular estão associadas a intercorrências na produção energética e função das mitocôndrias.
Caso os cientistas consigam decifrar uma forma de replicar nas nossas células o mecanismo que os bichos-preguiça usam para se manter saudáveis mesmo sem funcionar com a capacidade energética máxima, poderão surgir novos tratamentos promissores.
“Embora sejam necessárias mais pesquisas, as linhagens celulares da preguiça podem oferecer um modelo natural para entender como os organismos lidam com estados de baixa energia e o que dá errado em casos de doenças. A longo prazo, isso poderá contribuir para pesquisas sobre preservação de tecidos, medicina de terapia intensiva, envelhecimento, doenças metabólicas e até mesmo viagens espaciais de longa duração”, avalia outro autor do estudo, Pedro Galante, do Hospital Sírio-Libanês.
Novas análises dos genes saltadores das preguiças deverão realizadas para descobrir mais detalhes sobre seu funcionamento e capacidade.


