Especialistas esclarecem se é possível acabar com o lixo espacial
Dados mais recentes da Agência Espacial Europeia apontam que os níveis de lixo espacial aumentaram em 2024, elevando os riscos de acidente
atualizado
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Em tempo de viagens espaciais, um problema é cada vez mais recorrente: o lixo espacial. Qualquer objeto mandado pelos seres humanos para além da Terra e que permaneça em órbita ao redor do planeta é considerado um detrito.
Os números mostram que o lixo espacial tem crescido em níveis consideráveis. O Relatório Anual do Ambiente Espacial mais recente, da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), apontou que a quantidade de detritos aumentou ao longo de 2024, com cerca de 45,7 mil objetos maiores que 7,5 cm orbitando a Terra.
Além disso, os dados mostraram que ao menos três satélites ou foguetes antigos caem de volta no planeta diariamente. O documento foi divulgado no início do ano passado.
Diante de tanto lixo, será que é possível realizar uma “faxina espacial”? De acordo com o pesquisador Alexandre Bergantini, a redução dos detritos orbitais é desafiadora e dificilmente será completamente resolvida.
“Em muitos aspectos, ele se assemelha à poluição do ar e dos oceanos na Terra: é um problema cumulativo, de escala global, e que exige mitigação contínua, não uma solução única e definitiva”, afirma o especialista do Observatório do Valongo Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e apoiado pelo Instituto Serrapilheira.
Ainda assim, já há movimentações na área em busca de soluções para ao menos amenizar o problema. Bergantini aponta que as tecnologias mais avançadas são:
- Braços ou garras robóticas, que podem ser utilizados para capturar satélites inativos e direcioná-los à reentrada na atmosfera terrestre;
- Redes, que podem ser utilizadas para envolver e estabilizar os detritos, os conduzindo a zonas de decaimento orbital.
- Arpões, que podem ser utilizados para se fixar em objetos maiores e controlá-los até a reentrada na Terra.
Além dos projetos, também há progresso para realizar uma espécie de “reaproveitamento espacial”, no qual satélites mais novos viajam até os inativos, os reabastecendo e restabelecendo seu funcionamento.
“Um exemplo emblemático foi a missão envolvendo o satélite Intelsat 901 (IS-901), que foi ‘visitado’ pelo veículo Mission Extension Vehicle-1 (MEV-1). Em 2020, o MEV-1 realizou um acoplamento bem-sucedido com o IS-901 que já havia esgotado seu combustível. Após a junção, o veículo ativou seus próprios propulsores, reposicionando o satélite em sua órbita operacional e estendendo sua vida útil em aproximadamente cinco anos”, exemplifica o pesquisador.
Os riscos do lixo espacial
No espaço, o lixo é um dos fatores que mais atrapalham missões. Mesmo os objetos pequenos viajam a velocidades extremas e qualquer colisão tem capacidade de provocar prejuízos consideráveis para satélites e estações espaciais – quanto maior a quantidade, maior o risco de batidas.
Além disso, muitos detritos espaciais elevam os custos de missões, visto que, eventualmente, os satélites e as estações espaciais precisam realizar manobras preventivas de desvio. “Isso consome mais combustível, reduz a vida útil dos sistemas e exige monitoramento constante do ambiente orbital”, diz o professor de engenharia mecânica Gustavo Luiz Olichevis Halila, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Já durante a reentrada na Terra, são raros os casos que os fragmentos atinjam áreas habitadas, já que a maior parte da superfície da Terra é composta por oceanos, desertos e zonas pouco povoadas. Porém, existe o risco.
“A queda eventual de fragmentos maiores em áreas habitadas pode comprometer serviços essenciais dependentes de satélites, como comunicação, navegação GPS e monitoramento climático”, alerta Halila.
Há regulamentação para evitar detritos, mas ela carece de correções
Atualmente, existe regulamentação internacional para conter o aumento do lixo espacial e até responsabilizar os envolvidos. Um exemplo disso são os tratados e diretrizes do Outer Space Treaty (Tratado do Espaço Exterior, na tradução em português), estabelecido em 1967 para definir a estrutura do direito espacial internacional.
Apesar da existência, Bergantini aponta que ainda há um problema: a maioria das normas são incompletas, de cumprimento voluntário e com baixa capacidade de fiscalização e aplicação.
“Já existe uma base jurídica internacional, mas ela ainda carece de força, padronização e mecanismos eficazes de cumprimento para lidar com o problema na escala necessária”, diz o pesquisador.
Por outro lado, ele avalia que há um interesse dos países e empresas privadas exploradoras do espaço em ao menos mitigar o problema, a fim de reduzir os custos no setor espacial. A expectativa é que o tema tenha mais relevância nos próximos anos.
