Corais que só existem no Brasil correm risco de desaparecer. Entenda

Espécie que só existe no país sofreu branqueamento de 100% em área e a perda ameaça biodiversidade dos recifes no Brasil

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Foto de corais esbranquiçados - Branqueamento de corais: como aquecimento dos oceanos destrói recifes - Metrópoles
1 de 1 Foto de corais esbranquiçados - Branqueamento de corais: como aquecimento dos oceanos destrói recifes - Metrópoles - Foto: Getty Images

Eles parecem estruturas rígidas no fundo do mar, mas estão vivos e podem desaparecer antes que muita gente perceba. Um estudo apoiado pela Fapesp e publicado na revista Coral Reefs alerta que os corais-de-fogo brasileiros podem estar passando por uma “extinção silenciosa”, impulsionada pelo aquecimento do mar e por eventos extremos de branqueamento.

O branqueamento ocorre quando a temperatura da água do mar aumenta e afeta a relação entre os corais e as zooxantelas, microalgas que vivem associadas a eles e fornecem energia por meio da fotossíntese. Com o calor, essas algas deixam de beneficiar o coral e passam a produzir compostos tóxicos. Como resposta, o coral as expulsa.

A pesquisa foi feita a partir do monitoramento conduzido pelo Instituto Coral Vivo, com apoio da Petrobras, iniciado após a primeira grande onda de branqueamento que afetou severamente o Brasil, em 2019. O trabalho acompanhou corais-de-fogo antes, durante e depois do evento registrado no início de 2024, durante uma onda de calor associada ao fenômeno El Niño-Oscilação Sul.

O dado mais preocupante envolve a espécie Millepora braziliensis, que só existe no Brasil. Em Tamandaré, em Pernambuco, dentro da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, a espécie sofreu branqueamento de 100% e perdeu toda a cobertura viva nas colônias monitoradas.

Ela já é considerada criticamente ameaçada de extinção pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Apesar do nome, os corais-de-fogo não são corais verdadeiros. Segundo Miguel Mies, coordenador de pesquisa do Coral Vivo e pesquisador do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), eles são hidrocorais, mais próximos evolutivamente das águas-vivas. Na prática, porém, cumprem nos recifes uma função muito parecida com a dos corais verdadeiros.

“Os corais-de-fogo são os únicos corais ramificados que nós temos no Brasil. A função deles é adicionar complexidade ao recife e servir de abrigo para incontáveis espécies de peixes e outros invertebrados”, explica Mies.

O que é a “extinção silenciosa”

A preocupação dos pesquisadores é que algumas espécies de corais-de-fogo são pouco abundantes e historicamente negligenciadas nos programas de monitoramento. Por estarem em áreas de difícil acesso ou nas bordas dos recifes, elas acabam recebendo menos atenção do que espécies mais comuns.

No Brasil, existem quatro espécies de corais-de-fogo. Três são endêmicas, ou seja, não ocorrem em nenhum outro lugar do planeta. A Millepora alcicornis, também presente no Caribe, é a mais abundante e mais monitorada. Já a Millepora braziliensis é restrita ao Brasil e já era considerada extremamente ameaçada antes do último grande evento de branqueamento.

“A perda ocorre de forma silenciosa porque é uma espécie pouco abundante e que não aparece muito nesses programas de monitoramento. Hoje, são cerca de 15 colônias vivas documentadas depois do último grande episódio de branqueamento. É uma espécie à beira da extinção”, afirma Mies. “Quando o coral branqueia, ele ainda não está morto. Ele está na UTI. O problema é que, se o calor se prolonga, ele fica sem energia, passa fome e pode morrer”, compara o pesquisador.

Recifes sob pressão

O branqueamento de corais é considerado a maior ameaça aos recifes no mundo. O evento de 2023 e 2024 foi a quarta ocorrência global do tipo e atingiu 84% dos recifes do planeta. No Brasil, os chamados corais verdadeiros também foram afetados. Em Maragogi, Alagoas, o branqueamento chegou a 96%. Em Porto de Galinhas, Pernambuco, o índice foi de 84%.

Além do aquecimento do mar, os recifes brasileiros sofrem com pressões locais, como turismo desordenado, poluição, sedimentação, pesca excessiva e pisoteamento. Em áreas turísticas, esses fatores podem reduzir a capacidade de recuperação dos corais.

Segundo Rudã Fernandes, engenheiro de pesca, fundador e CEO da Biofábrica de Corais, o branqueamento é hoje o principal obstáculo para restaurar áreas recifais. “O segundo maior desafio se relaciona com o excesso de sedimentos sobre os recifes, o que compromete o crescimento e a sobrevivência dos corais se o manejo não for constante”, afirma.

Dá para recuperar os corais?

A Biofábrica de Corais atua na restauração de recifes a partir de fragmentos de corais tombados, muitas vezes quebrados por ondas ou por atividades humanas. Esses fragmentos são coletados, fixados em dispositivos de cultivo impressos em 3D e mantidos em estruturas submersas chamadas berçários. Depois de até um ano, passam pelas fases de recria e transplante.

“Durante esse período, semanalmente, o time de biofabricantes cuida dos corais, mantém os fragmentos limpos e faz a manutenção das estruturas”, explica Rudã.

Os primeiros sinais de recuperação podem aparecer cerca de três meses após a última fase de manejo. No entanto, mudanças ecológicas mais amplas, como aumento da cobertura coralínea, retorno de peixes e melhora da biodiversidade, podem levar de alguns anos a uma década.

Ainda assim, a restauração não é suficiente sozinha para acompanhar a velocidade dos impactos climáticos. “Ela é uma ferramenta importante para aumentar a resiliência dos recifes e recuperar áreas críticas, mas não substitui ações globais de redução das emissões de gases de efeito estufa”, diz Rudã.

Para ele, não basta “plantar corais”. É preciso garantir que eles tenham condições de sobreviver. Isso envolve saneamento, ordenamento do turismo, proteção ambiental, monitoramento contínuo e redução dos impactos locais.

A perda dos corais-de-fogo não ameaça apenas uma espécie. Como esses organismos formam estruturas ramificadas, eles funcionam como abrigo, área de alimentação e espaço de reprodução para peixes, crustáceos, esponjas, estrelas-do-mar e outros organismos marinhos.

“Não é perder só o coral, mas a biodiversidade residual como um todo. Cerca de um terço de toda a vida marinha é encontrada em recifes de coral, embora eles ocupem uma área muito pequena dos oceanos”, afirma Mies.

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