“Muito peculiar”, diz cientista brasileiro que descobriu vírus gigante
Pesquisador fez parte da equipe que identificou o naiavírus no Pantanal. Vírus gigante tem estrutura inédita e dimensões recordes
atualizado
Compartilhar notícia

Uma descoberta feita por cientistas brasileiros revelou um vírus até então desconhecido, com características inéditas na ciência. Batizado de naiavírus, ele foi descrito em um estudo publicado em setembro de 2025 na revista Nature Communications e chama atenção por ser o maior vírus envelopado com cauda já identificado no mundo.
A pesquisa foi conduzida por uma ampla colaboração entre instituições brasileiras e internacionais — incluindo UFMG, UFRJ, USP, CNPEM, Unesp, Fiocruz e Virginia Tech, entre outras — e contou com a participação do microbiologista Matheus Felipe dos Reis Rodrigues, da Universidade Federal de Minas Gerais.
Um vírus com formato e estrutura nunca vistos
O naiavírus surpreendeu os cientistas logo nas primeiras análises. Segundo Rodrigues, o formato do microrganismo foge completamente do padrão conhecido.
“Quando visualizei as partículas do naiavírus, o que mais me surpreendeu foi que o seu formato e simetria não se pareciam com nada descrito antes”, afirma, em entrevista ao Metrópoles.
O vírus apresenta um formato descrito como semelhante a uma gota ou uma coxinha, além de estruturas incomuns. Entre elas estão os chamados ostíolos (aberturas na estrutura viral) e uma cauda flexível e cilíndrica — algo raro entre vírus gigantes.

Uma das características mais intrigantes do naiavírus é justamente a cauda. De acordo com o pesquisador, ela pode ter um papel essencial na infecção.
“Nossa hipótese é que o naiavírus utiliza a cauda para se aderir aos pseudópodes e lamelipódios das amebas, e isso ajuda na fagocitose da partícula”, explica. Após ser englobado pela célula, o vírus inicia seu processo de replicação dentro da ameba, causando a morte do organismo.
O maior vírus com cauda já registrado
Além da forma incomum, o naiavírus também se destaca pelo tamanho. Ele é considerado o maior vírus com cauda já identificado e também o maior vírus envelopado conhecido até agora.
Segundo Rodrigues, essa característica reforça uma tendência observada nos últimos anos: a descoberta de vírus gigantes tem desafiado definições clássicas sobre o que é um vírus e ampliado a compreensão da chamada “virosfera”, o conjunto de todos os vírus existentes.
O vírus foi isolado em ambiente de pântano no Brasil, mais especificamente no Pantanal, região conhecida pela enorme biodiversidade. O microbiologista afirma que já havia indícios de que ambientes como esse poderiam abrigar vírus gigantes, mas o resultado superou as expectativas. “Nunca pensei em isolar algo tão peculiar como é o naiavírus”, diz Rodrigues.

Um genoma diferente de tudo que já foi visto
Outro ponto que chama atenção é o material genético do vírus. O genoma do naiavírus não se parece com o de nenhum outro vírus, o que sugere caminhos evolutivos ainda pouco compreendidos. “A descoberta sugere que os vírus que conhecemos são só uma pequena fração do que realmente existe”, diz Rodrigues.
Ele explica que a evolução viral não segue um padrão linear e pode envolver processos como mutações, duplicação de genes e até a incorporação de material genético de outros organismos.
Além disso, o vírus possui genes com função ainda desconhecida, o que abre espaço para novas pesquisas, inclusive com potencial uso em biotecnologia.
Naiavírus não infecta humanos
Apesar das características impressionantes, o naiavírus não representa risco para as pessoas. De acordo com o estudo, ele é altamente específico e infecta apenas amebas, que são organismos unicelulares.
A identificação do naiavírus reforça a ideia de que o universo dos vírus ainda está longe de ser totalmente conhecido. “Os limites da virosfera ainda não estão definidos”, destaca o microbiologista.
