Estudo projeta os melhores e piores cenários para o gelo da Antártida
Pesquisa indica que decisões desta década podem definir o volume de gelo, a fauna e o nível do mar por séculos, com impactos globais
atualizado
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As decisões sobre o meio ambiente tomadas nos próximos anos podem definir o futuro da Antártida por séculos. Um novo estudo modelou diferentes cenários para o aquecimento da Península Antártica e mostra que ainda é possível evitar parte dos impactos, embora os riscos cresçam rapidamente se as emissões continuarem elevadas.
O trabalho foi publicado na revista Frontiers in Environmental Science na última quinta-feira (19/2) e analisou como diferentes níveis de emissões de gases de efeito estufa podem afetar o gelo, os oceanos e os ecossistemas da região.
Os pesquisadores destacam que, apesar da distância geográfica, o que acontece na Antártida influencia o clima e o nível do mar em todo o planeta.
“A Península Antártica é um lugar especial. Seu futuro depende das escolhas que fizermos hoje. Em um cenário de baixas emissões podemos evitar impactos mais graves, mas com emissões altas corremos o risco de perder gelo, geleiras e até espécies emblemáticas como os pinguins”, afirmou a pesquisadora Bethan Davies, da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, e principal autora do estudo.
Por que a Antártida importa
A Antártida desempenha papel essencial na regulação do clima global. Suas grandes massas de gelo ajudam a refletir a radiação solar e armazenam água doce.
Com o aquecimento, esse equilíbrio pode ser comprometido, favorecendo a elevação do nível do mar e alterações em correntes oceânicas e atmosféricas.
Os cientistas analisaram cenários com aumento médio de temperatura de cerca de 1,8 °C, 3,6 °C e até 4,4 °C até o fim do século. Foram considerados impactos em gelo terrestre e marinho, oceanos, atmosfera, biodiversidade e eventos extremos.
“Embora a Antártida pareça distante, as mudanças ali não ficam isoladas. Elas influenciam o nível do mar, o clima e as cadeias alimentares em várias partes do mundo”, destaca Bethan Davies em comunicado.
O professor Peter Convey, do British Antarctic Survey e coautor do estudo, diz que as transformações já são perceptíveis para quem acompanha a região há décadas. “Para quem retorna várias vezes, as mudanças são muito claras. A região continua dominada pelo gelo, mas ele está mudando”, diz.

O que pode acontecer nas próximas décadas
Nos cenários mais pessimistas, o aquecimento do Oceano Antártico pode acelerar a perda de gelo terrestre e marinho. Isso aumenta o risco de colapso de plataformas de gelo e elevação do nível do mar.
Os modelos indicam que a cobertura de gelo marinho pode cair cerca de 20% em cenários de altas emissões, o que afetaria diretamente espécies como o krill, base alimentar de baleias, focas e pinguins, além de intensificar o aquecimento dos oceanos.
Os pesquisadores também esperam deslocamento de espécies em direção ao sul para fugir das temperaturas mais altas. Mesmo assim, se as presas não acompanharem essa mudança, predadores podem enfrentar escassez de alimento.
“O que mais preocupa é que muitas dessas mudanças podem ser irreversíveis em escala humana. Se não reduzirmos as emissões agora, as próximas gerações terão que conviver com essas consequências”, alertou Davies.
Apesar dos riscos, o estudo reforça que cenários com redução de emissões ainda podem preservar parte das geleiras, limitar a elevação do nível do mar e reduzir impactos sobre a fauna e os ecossistemas.
Para os pesquisadores ainda há margem para evitar danos mais severos, mas o tempo para agir é cada vez menor.
