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Ciência

Carcaça de baleia na praia é perigosa e oferece risco mecânico e biológico

Aumento da pressão interna e bactérias nocivas exigem isolamento de 100 metros nas praias para evitar acidentes e infecções

04/10/2026 02:00
Foto: PMP-BSUdesc/ Divulgação
Baleia morta encalhada na beira da praia

Quando uma baleia de dezenas de toneladas morre na praia, o relógio biológico dispara uma reação em cadeia invisível e altamente perigosa. Longe de ser inofensivo, o corpo do animal se transforma em um recipiente sob extrema pressão mecânica.

A espessa camada de gordura subcutânea e a pele enrijecida impedem o escape natural dos fluídos, criando o cenário propício para rupturas violentas capazes de arremessar tecidos e expor o público a agentes patogênicos graves.

O fenômeno da explosão de carcaças, embora lembre uma combustão, trata-se de uma falha estrutural por pressurização. “Quando uma baleia morre, as bactérias que já habitavam seu organismo, especialmente aquelas presentes no trato gastrointestinal, começam a decompor os tecidos”, explica a bióloga Carol Braga.

Durante a putrefação — processo biológico de decomposição da matéria orgânica de um organismo morto —, microrganismos geram metano, dióxido de carbono, sulfeto de hidrogênio e amônia em volumes massivos.

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“À medida que os microrganismos produzem gases, eles se acumulam nas cavidades corporais. Quando essa pressão ultrapassa a resistência mecânica de alguma região da carcaça, pode ocorrer uma ruptura súbita”, afirma a bióloga.

Explosão pode causar risco biológico

A força do rompimento não é o único perigo. O isolamento rigoroso da área é fundamental para evitar a proliferação de infecções e acidentes. “A recomendação padrão é manter um raio mínimo de 100 metros de isolamento”, alerta a médica-veterinária e microbiologista Diane Alves, professora do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), em Caxias do Sul.

A especialista ressalta que o perímetro exato varia conforme o tamanho do animal, o vento e a maré, mas a aproximação traz graves riscos biológicos. “Há risco de contaminação pelo contato com tecidos e fluidos decorrentes da decomposição, que podem apresentar elevada carga microbiana”, diz Diane.

Entre as bactérias que encontram terreno propício nas cavidades sem oxigênio estão espécies do gênero Clostridium, além de patógenos zoonóticos nocivos aos seres humanos.

“Entre os patógenos já documentados em mamíferos marinhos estão bactérias do gênero Brucella, especialmente Brucella ceti, associada à brucelose, e Erysipelothrix rhusiopathiae, capaz de provocar infecções cutâneas e manifestações sistêmicas”, destaca Carol. O contágio ocorre principalmente pelo contato direto de fluídos com a pele ferida ou mucosas.

Além do perigo biológico direto, o forte odor gerado por aminas como cadaverina e putrescina atinge quem tenta se aproximar para tirar fotografias.

A professora de zoologia Tami Bogéa, Doutora pela Universidade de Connecticut e docente da Faculdade Celso Lisboa, reforça o perigo de permanecer na área sem proteção adequada. “O cheiro intenso é produzido por diversos compostos liberados durante a decomposição, e a exposição pode provocar irritação das vias respiratórias, náusea, dor de cabeça e desconforto“, ressalta Tami.

A zoóloga orienta manter pelo menos 90 metros de distância e afastar-se ainda mais se houver vazamentos ou se o corpo estiver próximo à água.

Impacto também no mar

A presença de uma carcaça na zona de arrebentação também altera o comportamento da fauna marinha local. Fluidos corporais dissolvidos na água funcionam como um sinalizador químico que atrai tubarões e outros necrófagos a longas distâncias, eliminando a necessidade de caça ativa.

Por isso, especialistas recomendam suspender banhos de mar e esportes aquáticos nas imediações do encalhe até a remoção completa do animal.

Técnicos avaliam o estado do abdômen, que se mostra tenso e esticado, além da temperatura ambiente, para calcular o risco de vazamento ou ruptura antes de manejar o corpo. No Brasil, o protocolo padrão envolve acionar a Rede de Encalhe e Informação de Mamíferos Aquáticos (REMAB), coordenada pelo ICMBio.

O manejo pode incluir a necropsia para investigação científica, seguida de sepultamento controlado na areia, remoção para aterro sanitário licenciado ou reboque para alto-mar.

Apesar dos riscos no litoral, o destino final das baleias no oceano desempenha um papel ecológico essencial. Quando afundam em águas profundas, geram o evento conhecido como queda de baleia. A carcaça supre de energia ecossistemas abissais por décadas, alimentando desde tubarões e crustáceos até vermes do gênero Osedax e bactérias quimiossintetizantes.

Diante de um encalhe, a regra de ouro para a população é o afastamento imediato. O procedimento correto é isolar, principalmente, crianças e animais domésticos e ligar para o Corpo de Bombeiros (193) ou para os órgãos de proteção ambiental da região.