Brasil cria 1º porco clonado para transplante de órgãos humanos
Tecnologia pode transformar o futuro dos transplantes de órgãos humanos no país
atualizado
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O Brasil criou o primeiro porco clonado para transplante de órgãos humanos. Esse marco inédito na ciência do país foi obtido por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), com apoio da FAPESP. A novidade foi publicada pela Agência Fapesp Brasil nesta quinta-feira (23/4).
O projeto começou em 2019 e agora os pesquisadores conseguiram gerar o primeiro porco clonado da América Latina, com potencial para fornecer órgãos a humanos no futuro. O animal nasceu saudável, com cerca de 1,7 kg, em um laboratório de Piracicaba, no interior paulista. Foram quatro meses de gestação.
O resultado é considerado crucial para o desenvolvimento do xenotransplante, técnica que envolve a transferência de órgãos entre espécies diferentes e que pode abrir caminho para reduzir a fila de transplantes no Sistema Único de Saúde (SUS).
Como funciona o xenotransplante
Apesar de promissor, o uso de órgãos de animais em humanos enfrenta um grande desafio: a rejeição imediata pelo sistema imunológico. Para contornar esse problema, os cientistas precisam modificar geneticamente os animais.
No projeto brasileiro, os pesquisadores utilizaram a ferramenta de edição genética CRISPR/Cas9 para desativar três genes suínos associados à rejeição e inserir sete genes humanos nas células do animal. Essas alterações tornam os órgãos mais compatíveis com os do organismo humano, aumentando as chances de sucesso em um eventual transplante.
Os suínos são considerados ideais para esse tipo de procedimento por apresentarem órgãos semelhantes aos dos humanos, em tamanho e funcionamento. Além disso, têm rápida reprodução e crescimento, o que facilita a produção em escala. Com cerca de sete meses, esses animais já atingem o tamanho adequado para doação de órgãos a um adulto.
Quais órgãos podem ser usados?
Inicialmente, o projeto foca na produção de rim, coração, córnea e pele — estruturas que, juntas, representam cerca de 94% da demanda por transplantes no SUS. A ideia é que esses órgãos possam, no futuro, ser usados tanto como solução definitiva quanto como “ponte” até que um órgão humano compatível esteja disponível.
Os animais são criados em ambientes com rigoroso controle sanitário para evitar qualquer risco de transmissão de vírus ou bactérias aos humanos. Apesar do avanço, o xenotransplante ainda não é realidade clínica. Estudos estão em andamento em países como Estados Unidos e China, e até o momento nenhum recebeu aprovação definitiva para uso amplo.
Mesmo assim, resultados iniciais já mostram potencial: em alguns casos experimentais, órgãos de porco funcionaram por meses em pacientes humanos.
Caso o xenotransplante se torne viável apenas em outros países, o Brasil poderia ficar dependente da importação de órgãos — algo considerado inviável para o SUS.
