Galanteador da natureza: biólogos contam fatos curiosos sobre o pavão
Reconhecido pela beleza e exibição, o pavão também tem outros papéis na natureza, incluindo o controle de animais no ambiente
atualizado
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Se fossem humanos, os pavões machos seriam pessoas altamente vaidosas e que adorariam demonstrar os atributos físicos por aí. Mas na natureza, toda essa exibição tem um motivo: como convivem em grupo e têm comportamento social hierárquico, eles precisam expor os dotes através da cauda ornamentada para ter uma posição privilegiada entre os pares.
“Os machos dominantes ocupam as melhores posições dentro do grupo e têm um acesso privilegiado às fêmeas. Mas um fato interessante é que mesmo os não dominantes conseguem se reproduzir dentro do grupo, o que mostra que estes animais têm estratégias reprodutivas flexíveis”, explica o biólogo Mateus Almeida dos Santos, da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
As espécies da ave, como o pavão-azul (Pavo cristatus), são nativas do sul e sudeste da Ásia, mas foram introduzidos em solo brasileiro devido a beleza e exuberância, “Apesar de fazer parte da fauna silvestre do país, os pavões se adaptaram muito bem ao Brasil”, diz Santos.
Cauda chamativa: o segredo da conquista
As caudas chamativas dos pavões estão presentes apenas nos machos. Com o auxílio delas, eles exibem todo seu charme no período de acasalamento para conquistar as melhores fêmeas.
Além da beleza, uma cauda bem cuidada demonstra saúde, força e boa nutrição às candidatas. O atributo embelezador também é utilizado para espantar possíveis concorrentes, mas nem todos gostam de ir para o embate.
“Alguns estudos mostram que os machos podem fingir ter caudas menores e menos vistosas quando competem com rivais mais fortes fisicamente. Essa é uma estratégia para evitar um possível combate, o que preserva a integridade física do animal, um comportamento conhecido como exibição de cauda reduzida”, destaca o biólogo.

O biólogo George Xavier, do Instituto Parque dos Falcões, em Sergipe, explica que a fêmea não possui a mesma cauda exuberante. Ser mais discreta é uma vantagem para se proteger na natureza e ajuda na camuflagem no período de chocar ovos.
“Curiosamente, essa cauda não ajuda em nada na sobrevivência — na verdade, só atrapalha, deixando o animal mais chamativo e menos ágil contra predadores. As fêmeas também não desenvolvem esse tipo de ornamentação porque não precisam disputar parceiros”, conta o especialista.
Pavão não é apenas um “rostinho bonito” na natureza
Se engana quem pensa que o pavão só vive para se exibir e namorar. A ave tem papel ecológico importante para controlar populações de insetos e pequenos invertebrados, incluindo gafanhotos, besouros, larvas e aranhas.
Por serem onívoros, eles também se alimentam de sementes, frutos e grãos. Quando se deslocam pelo habitat, eles agem quase como “dispersores de sementes com asas”, ajudando na manutenção e regeneração da vegetação local.
Por outro lado, eles também servem como base alimentar para outros predadores, como grandes felinos, aves de rapina e canídeos em seu ambiente natural. Isso ajuda a manter o equilíbrio alimentar ambiental.
“São aves sensíveis a alterações no habitat e por isso podem funcionar como bioindicadores, sinalizando mudanças ambientais como perda de vegetação ou excesso de perturbação humana”, aponta Xavier.
Situação do animal na natureza
A espécie mais difundida no mundo é o pavão-azul e justamente pela tamanha popularidade, a situação atual da ave é classificada como “pouco preocupante”. Com populações estáveis e boa capacidade de adaptação a mudanças causadas por humanos, elas estão fora de perigo. Na índia, as aves são consideradas até sagradas, sendo fortemente protegidas.
“O pavão-azul é amplamente criado como ave ornamental em várias partes do mundo, o que acaba funcionando como um “estoque genético” fora da natureza e contribui para a conservação”, afirma Xavier.
No entanto, outras espécies, como o pavão-verde (Pavo muticus) e pavão-do-Congo (Afropavo congensis), são classificadas como “ameaçadas de extinção” e “vulneráveis”, respectivamente. As ameaças se dão pela perda de habitat, atropelamentos, uso de agrotóxicos e conflitos com humanos, especialmente em áreas rurais.
