Bactéria do cheiro de terra molhada pode ajudar a controlar insetos
Bactéria responsável por produzir o cheiro de terra molhada é capaz de criar um toxina capaz de matar insetos e decompô-los, aponta estudo
atualizado
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Sabe aquele cheiro de terra molhada que você sente após a queda da chuva? Ele é produzido por um tipo de bactéria chamado Streptomyces. No entanto, sua função vai muito além disso. Considerado um dos organismos mais abundantes do planeta, ele ajuda a produzir vários dos compostos anticancerígenos, imunossupressores e antibióticos difundidos por aí.
Para aumentar ainda mais a sua lista de atribuições, um estudo recente descobriu uma nova classe de toxinas produzidas pela bactéria que conseguem matar insetos, ajudando no controle populacional de pragas.
Segundo os pesquisadores, apesar da nova toxina ter semelhanças estruturais com a que causa a difteria, uma infecção grave e contagiosa em humanos, ela não nos ataca.
“Essas toxinas, que chamamos de proteínas inseticidas de Streptomyces antiquus, ou SAIPs, afetam apenas as células dos insetos”, afirma um dos autores do estudo, Cameron Currie, em comunicado.
O achado foi liderado por pesquisadores de três universidades: a de McMaster, no Canadá; a de Yale, nos Estados Unidos; e a de Estocolmo, na Suécia. Os resultados foram publicados na revista Nature Microbiology nessa quinta-feira (30/4).
Identificação por CRISPR e possível uso médico através da bactéria
Chamadas de SAIPs, os pesquisadores queriam compreender o motivo das substâncias infectarem apenas insetos. Para a tarefa, foi utilizado o método de edição genômica CRISPR, uma tecnologia que permite cortar e editar sequências de DNA com alta precisão. O objetivo era encontrar os fatores necessários para ocorrer a toxicidade.
Depois de eliminar os genes das células dos insetos, foi identificada uma proteína de superfície chamada Flower. Os pesquisadores explicam que, apesar de ter outras versões da proteína em organismos distintos, a presente nos animais voadores é a única que as SAIPs conseguem se conectar.
Por outro lado, não são todas as espécies de Streptomyces que matam insetos — a maioria vive harmoniosamente com eles. No entanto, descobriu-se que o clado de cepas encontrado pode fazer mais do que matar os animais voadores.
“Elas não apenas matam insetos — também são notavelmente eficientes em consumi-los, usando seus hospedeiros mortos como fonte de nutrientes essenciais”, aponta Currie.
De acordo com os cientistas, é preciso estar atento à decomposição dos insetos feita pela toxina. Eles acreditam que as substâncias químicas antimicrobianas produzidas no processo tem potencial para criar novos antibióticos. A expectativa é que os estudos continuem.
“O fato de termos encontrado algo tão inédito em um dos grupos de bactérias mais abundantes e estudados do mundo ressalta o quão pouco realmente sabemos sobre elas. Essa toxina serve como um poderoso lembrete de que as bactérias são organismos incrivelmente diversos, com capacidades que continuam a nos surpreender”, finaliza Currie.
