Extinção das ararinhas-azuis: saiba se ainda dá para salvar a espécie
Em novembro, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) afirmou que as últimas 11 ararinhas-azuis soltas na natureza foram contaminadas vírus letal
atualizado
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Uma ave que já reinou nos céus nordestinos, mas que atualmente enfrenta severas dificuldades para se manter na natureza. Essa é a situação atual das ararinhas azuis (Cyanopsitta spixii), uma ave endêmica do Brasil e que em meados de novembro voltou ao holofote após o Ministério do Meio Ambiente (MMA) confirmar que as últimas 11 que estavam na natureza, na zona rural de Curaçá (BA), estão contaminadas com um vírus letal, o circovírus.
De acordo com a analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e coordenadora da emergência sanitária que envolve as ararinhas, Claudia Sacramento, existem 130 exemplares da espécie no Brasil atualmente. No criadouro baiano, estão 103, sendo que 31 testaram positivo para o vírus – ou seja, além das 11 que foram soltas e recapturadas, 20 também se contaminaram.
Apesar dos números preocupantes, Claudia afirma que ainda dá para salvar a espécie brasileira, mas a missão não é nada simples. É essencial conter a disseminação do vírus altamente contagioso e manejar adequadamente a espécie.
“Ainda há condições de retomada do projeto de reintrodução, desde que seja garantido o isolamento e a não infecção dos indivíduos negativados. Também é crucial torcer para que o ambiente da Caatinga não tenha sido contaminado. Se o bioma estiver com o vírus, o esforço para reverter a situação será enorme — não impossível, mas extremamente complexo”, diz a representante da entidade.
Da extinção a superação: a história das ararinhas-azuis
A espécie foi considerada extinta nos 2000, quando o último exemplar selvagem desapareceu. De lá para cá, houve um esforço conjunto nacional e internacional para retomar a presença das aves em nossa fauna. Mesmo sendo considerada desaparecida, ainda existiam algumas delas em cativeiros pelo mundo.
Cerca de 90% das ararinhas estavam em posse da ONG alemã ACTP que, após negociações com o governo federal, as devolveu de volta para casa. A reintrodução começou em 2020.
Segundo a professora de biologia Elissandra Andrade, o projeto de retomada das aves na natureza tem dado resultado. No entanto, a contaminação pelo vírus serve como um sinal de alerta: para o processo dar certo, as autoridades ambientais devem agir em conjunto.
“Um estudo recente de viabilidade populacional indica que um grupo inicial de 20 indivíduos é o mínimo para começar, mas isso não garante nada. Para simplificar, se nós pararmos as solturas anuais agora, a probabilidade de a ararinha-azul ser extinta da natureza novamente retorna a níveis de quase 100%”, ressalta a docente do Colégio Católica Brasília.
Sem a soltura anual de novos exemplares na natureza, a variabilidade genética é prejudicada e, consequentemente, a manutenção da espécie também. É necessário o envolvimento de diferentes setores públicos, de fiscalizadores a ambientais, a fim de evitar caças ilegais e que as mudanças climáticas prejudiquem a existência das ararinhas.
O que levou as ararinhas-azuis à extinção?
Vários fatores contribuíram para o declínio populacional da ave brasileira e a todos eles estão ligados à ação humana: o principal é o tráfico e caça de animais silvestres. “A ararinha-azul, com sua beleza inconfundível, virou um alvo valioso”, diz Elissandra.

A destruição de habitat também contribuiu bastante para o sumiço. Com a degradação da Caatinga, uma grande quantidade de árvores de grande porte desapareceu e os bichos ficaram sem os locais onde construíam seus ninhos. Secas severas também ajudaram a impactar negativamente os animais.
Volta das ararinhas: um esforço que depende de todos
Retomar a presença de ararinhas-azuis na natureza não é apenas colocá-las na natureza e deixar por isso. Exige um esforço conjunto entre governo federal, autoridades fiscalizadoras e a própria população para que elas voltem e permaneçam a longo prazo.
Na parceria, o poder público é responsável por financiar projetos e coibir o tráfico ilegal das aves. Já a população pode ajudar na iniciativa de restauração e conservar a Caatinga, o ambiente natural em que vivem os bichos voadores.
“A reintrodução da ararinha-azul é mais do que salvar uma ave bonita. É uma política pública de longo prazo para restaurar a funcionalidade de uma parte vital da Caatinga. Precisamos de financiamento contínuo, apoio governamental e atenção da mídia para garantir que um símbolo de nossa fauna não se torne apenas uma memória do passado”, finaliza Elissandra.
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