Vídeo: candidato à reeleição, presidente do Sebrae é acusado de assédio contra funcionários

Gravações mostram Carlos Melles chamando funcionárias de "bicuda", "tagalera" e "mole", além de xingamentos e intimidações

atualizado 29/11/2022 14:42

Flickr/Liderança Democratas

O presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Carlos Melles (foto em destaque), é acusado de assédio moral contra funcionários do órgão. A ouvidoria do Sebrae afirmou ao Metrópoles que apura as denúncias.

Melles foi alvo de denúncias a poucos dias da eleição para a presidência do Conselho Deliberativo da entidade, que ocorre nesta terça-feira (29/11). Candidato à reeleição, ele aparece em vídeo proferindo xingamentos, ofensas e intimidações contra servidores durante reuniões do Sebrae. Melles nega as acusações e afirma que as imagens foram “editadas” e “descontextualizadas”.

Nas gravações, Melles desrespeita funcionários – em sua maioria, mulheres. Ele chama as supostas vítimas de “bicuda”, “tagarela”, “mole” e “teimosa”, dentre outros adjetivos. Em uma das situações, o presidente do Sebrae classifica uma profissional de “advogada mais ou menos”.

As reuniões ocorrem por meio de videochamadas em aplicativos. Melles sabia que estava sendo filmado. Inclusive, chegou a ser alertado por uma das pessoas, conforme as gravações.

Veja o vídeo:

Em nota ao Metrópoles, Melles chama as acusações de “pseudodenúncias” e diz que elas “não têm qualquer amparo na realidade”. “As notas e os vídeos apócrifos foram feitos de forma covarde, uma vez que os autores não assumem de público suas acusações. O material traz trechos minuciosamente editados, totalmente descontextualizados, para construir uma narrativa baseada na mentira”, afirma.

O ex-deputado federal argumenta que os “momentos de pressão” vividos ao longo dos quatros em que está à frente da instituição “não permitem insinuações fraudulentas”. A entidade teve receita de R$ 5 bilhões em 2022.

“Das mais de centenas reuniões on-line que conduzi para permitir a tomada de decisão em situações de crise, os trechos editados não refletem a minha rotina; ao contrário”, diz.

Questionada pela reportagem do Metrópoles, a Ouvidoria do Sebrae informou ter instaurado, no dia 21 de novembro deste ano, procedimento interno para “conhecer, de modo aprofundado e contextualizado, os assuntos ali narrados”. O órgão frisou ter tomado conhecimento da denúncia dois dias antes, em 19 de novembro.

As acusações de assédio

As imagens, compartilhadas entre funcionários do Sebrae e publicadas pelo site Capital Digital, mostram trechos de reuniões da instituição. “Eu te perguntei alguma coisa? Cê fala pra cacete”, dispara Melles, em um dos registros, ao se dirigir a uma das participantes.

Em alguns momentos, ele define pessoas que trabalham no Sebrae como “mole”, “bicuda”, “advogada mais ou menos”, “tagarela”, “teimosa”, entre outros insultos.

“Eu quero pegar o gerente de inovação, ele vai ver se vai ter mais um projeto aprovado”, ressalta o titular da entidade, em outra reunião filmada. Um dos participantes pede para o presidente se acalmar, e Melles responde: “Não tenho calma. Não tem responsabilidade”.

Uma das participantes de uma reunião rebate o presidente e diz ter sido desrespeitada.

“O senhor está falando com uma profissional aqui. Agora o senhor veio e me desrespeitou, desrespeita todo mundo aqui na mesa”, pontua a funcionária. Ela ainda relembra que eles estão sendo gravados:

Em diferentes ocasiões, Melles se refere a uma outra funcionária.

“Para com isso, puta que pariu. Não dê palpite, não. Para pôr defeito, chega a menina ali”, diz o gestor, em alusão à mulher que pediu respeito.

O presidente ainda diz que a funcionária “nunca vai ser nada”, que fica “chato” quando ela “não fala pra mim onde ela foi, onde ela vai” e que ela “ainda vai precisar dele”.

Em outra situação, Melles diz querer, “primeiro, mulher, jovem, bonita”. No vídeo, não está claro a que o presidente do Sebrae se refere. Procurado, ele não esclareceu a fala.

Eleições

A eleição da presidência do conselho está marcada para esta terça-feira. O colegiado, composto por 15 conselheiros titulares, é responsável pela escolha da diretoria executiva do Sebrae, comandada atualmente por Carlos Melles.

Hoje a presidência do Conselho Deliberativo Nacional (CDN) é de José Roberto Tadros.

O vice-presidente recém-eleito, Geraldo Alckmin (PSB), chegou a pedir que o processo eleitoral do Sebrae fosse adiado para fevereiro de 2023. A instituição afirmou, porém, que a alteração violaria “normas sistêmicas” do Sistema Sebrae – segundo a entidade, as eleições de membros da Diretoria Executiva e do Conselho Fiscal devem ser feitas entre os dias 16 de novembro e 15 de dezembro.

“O pretendido adiamento representa, a bem da verdade, verdadeiro risco à coesão e à atuação do Sebrae voltada à consecução de seus objetivos institucionais, tendo em vista, sobretudo, a conclusão do processo eleitoral em 17 Sebraes das unidades da Federação até o presente momento”, argumenta o ofício, assinado pelo vice-presidente em exercício do Conselho Deliberativo Nacional, José Zeferino Pedrozo.

A resposta ressalta, ainda, que o Sebrae, na condição de “serviço social autônomo”, “é regido por normas estatutárias próprias, que orientam a organização e a operação da unidade nacional coordenadora e das unidades operacionais a ela subordinadas”.

Outro lado

Em nota, o Sebrae informou que, por intermédio da Ouvidoria da entidade, ao tomar conhecimento, no dia 19/11/2022, de notas e vídeos apócrifos envolvendo membro da Diretoria Executiva da Instituição, instaurou, em 21/11/2022, “procedimento interno para conhecer, de modo aprofundado e contextualizado, os assuntos ali narrados”.

“A apuração seguirá o rito previsto no Regimento Interno da Comissão de Ética do Sebrae – normativo esse que baliza os processos instaurados para apuração de deslizes éticos de diretores e de colaboradores da instituição – e na sua tramitação, como sempre, serão asseguradas aos eventuais investigados as garantias do contraditório e da ampla defesa”, explicou a entidade.

O Sebrae reafirmou, ainda, a “excelência do seu sistema de controle interno para conhecer e apurar reclamações que possam envolver qualquer integrante da instituição, bem como a responsabilidade no processo de aprofundamento das denúncias que chegam ao seu conhecimento, aplicando sempre a melhor decisão nos casos por ele apreciados”.

Melles alega que “as notas e os vídeos apócrifos foram feitos de forma covarde, uma vez que os autores não assumem de público suas acusações. O material traz trechos minuciosamente editados, totalmente descontextualizados, para construir uma narrativa baseada na mentira. Momentos de pressão que vivemos intensamente ao longo desses quatro anos em que estou à frente da instituição não permitem insinuações fraudulentas”.

“Das mais de centenas reuniões on-line que conduzi para permitir a tomada de decisão em situações de crise, os trechos editados não refletem a minha rotina; ao contrário. Diante disso, solicitei à Ouvidoria do Sebrae que formalizasse a abertura de procedimento interno para apuração das acusações, para que não pairem dúvidas sobre a correção da minha conduta na Presidência da Instituição”, finalizou Melles.

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