Dois diplomatas que ocupavam altos cargos no Consulado-Geral do Brasil em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, trocaram socos e tapas no Aeroporto Internacional de Viru Viru, no mesmo país, na manhã do dia 17 de janeiro. As imagens, gravadas pelo sistema de videomonitoramento, mostram José Augusto Silveira de Andrade Filho, antigo cônsul-geral, levando um tapa e depois desferindo um golpe em Sóstenes Arruda de Macedo, que era cônsul adjunto. A Justiça já havia sido acionada pelos dois lados devido a outros problemas. Sóstenes, inclusive, levou o caso ao Ministério Público da Bolívia. 

Andrade Filho teve a indicação aprovada pelo Senado Federal no último dia 27 de novembro e foi nomeado no dia 28 de dezembro embaixador do Brasil na Namíbia a partir de fevereiro deste ano. Macedo, por outro lado, não ocupa mais o cargo e respondeu a dois processos administrativos disciplinares. De acordo com relatos ouvidos pela reportagem, os dois tinham um relacionamento complicado no ambiente de trabalho.

Nesses mesmos relatos, o embaixador indicado é descrito como uma pessoa séria, bastante respeitada entre os pares. A sua indicação para embaixador, inclusive, foi descrita como um passo natural em uma carreira bem sucedida.

No vídeo, Sóstenes está de camisa preta e aparece dando um tapa no celular do colega de trabalho, que segurava o aparelho. Augusto, de branco, revida com um soco. Os dois continuam discutindo enquanto o dono do telefone pega o objeto no chão. Logo em seguida, depois de ter sido chamado, um funcionário do aeroporto aparta a briga. 

“Eu fui falar com ele [Augusto]. Ele puxou o celular para me filmar e estava muito nervoso. Bati na mão dele para o celular cair. Quando caiu, ele me deu um soco. Quando me recompus, meu ímpeto foi de imediatamente reagir, mas me lembrei que estava no exterior, em local público, diante de câmeras”, descreveu Sóstenes.

O Itamatary foi procurado pelo Metrópoles duas vezes. Na primeira, informou que ambos os envolvidos não estavam a serviço na ocasião das imagens e disse que não havia sido comunicado oficialmente sobre o fato. Na segunda, quando a reportagem já tinha conseguido acesso ao vídeo, o Itamaraty não respondeu se providências seriam tomadas em relação à situação.

Sóstenes, que além de diplomata é padre, alega que sofria assédio moral quando era subordinado a Augusto. “Estou num processo de linchamento pessoal e profissional. Foram mais de três anos de reiterado espancamento moral e administrativo”, afirmou.

A principal razão para os desentendimentos teria sido, segundo ele, a não execução de orçamento disponível para alimentação de presos brasileiros em Santa Cruz de La Sierra entre 2016 e 2017. “Eu conhecia os presos pelos nomes e entregava as cestas pessoalmente. Os presídios bolivianos são sucursais do inferno. Ele [Augusto] não executava nem se empenhava em fazer pedidos para novos recursos”, disse.

Sóstenes denunciou a atitude de Augusto, então cônsul-geral, ao Ministério Público Federal. Depois disso, afirma ter sofrido retaliações no consulado. “Ele tirou sala, tirou telefone, tirou computador, tirou jornais, tirou estacionamento e tirou funções. Depois de um processo judicial, cumpriu uma liminar e devolveu as coisas, mas as funções não foram devolvidas”, contou.

Um dos processos administrativos abertos no Ministério das Relações Exteriores contra Sóstenes diz respeito a um atentado contra a vida, mas ele nega que tenha cometido o ato. “Uma coisa absolutamente fraudulenta, com inúmeras violações de direito de defesa. O próprio cônsul-geral prestou depoimento e escolheu testemunhas”, disse.

Sobre isso, o Itamaraty respondeu que há dois processos administrativos abertos que investigam o servidor, mas eles correm em sigilo.

O diplomata José Augusto Silveira de Andrade Filho foi procurado por telefone, mas preferiu não se pronunciar sobre a situação.