Venezuelanos que chegam ao Brasil pedem saída de Delcy e Diosdado
Venezuelanos na fronteira com o Brasil reagem com cautela à prisão de Maduro e dizem que queda do ex-presidente não encerra o chavismo
atualizado
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Pacaraima (RR) – A prisão de Nicolás Maduro ainda não gerou cenas de comemoração pública na Venezuela. Na fronteira com o Brasil, em Pacaraima, venezuelanos que cruzam para o lado brasileiro demonstram alívio contido, desconfiança e, sobretudo, medo de falar abertamente sobre política.
Em conversas rápidas, muitas interrompidas pelo receio de identificação, os relatos apontam para uma percepção comum: a queda de Maduro, por si só, não representa o fim do regime chavista.
“Não é o Maduro que manda. Ele só fazia o que mandavam”, afirmou um trabalhador venezuelano que atua na liberação de caminhões na fronteira. “Tem que tirar ele, Diosdado [ministro do Interior, Justiça e Paz] e a Delcy [presidente interina]”, disse, ao citar nomes do alto escalão do governo.
A menção a Delcy Rodríguez surge acompanhada de desconfiança. “Estão dizendo que foi ela que articulou a entrega dele”, afirmou um outro homem entrevistado, antes de ponderar, que “isso parece coisa de filme”. Ainda assim, reforçou que, para muitos venezuelanos, o problema vai além de um único líder.
Pela Constituição venezuelana, em caso de ausência do presidente, o poder passa à vice-presidente – cargo que era ocupado por Delcy Rodríguez.
Na noite do último sábado (3/1), dia em que Nicolás Maduro foi capturado por forças norte-americanas, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela determinou que ela assumisse interinamente a Presidência. A decisão diz que Delcy ocupa o cargo para “garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da Nação”. Rodríguez foi empossada oficialmente na segunda (5/1).
Captura e acusações contra Nicolás Maduro
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- Nicolás Maduro e a esposa, Cilia Flores, foram capturados no último sábado (3/1) por forças dos EUA e levados a Nova York para julgamento.
- A denúncia afirma que Maduro comandou por mais de 20 anos uma rede criminosa no Estado venezuelano para enviar cocaína aos EUA.
- Também foram acusados Diosdado Cabello, ministro do Interior da Venezuela; Cilia Flores, esposa do presidente; o deputado Nicolás Maduro Guerra, filho do ditador venezuelano; e outros aliados do regime, apontados como integrantes ou facilitadores da suposta organização criminosa
- As acusações incluem narcoterrorismo, tráfico e lavagem de dinheiro, com penas de 20 anos a prisão perpétua. Maduro se declara inocente.
Comemoração com cautela
Entre venezuelanos que chegaram ao Brasil vindos do estado de Anzoátegui, a avaliação foi direta, mas cautelosa. Questionados sobre a prisão de Maduro, responderam em coro: “Excelente”. Em seguida, recuaram. “Mas não se pode celebrar”, disse um deles. “Não podemos celebrar”.
Em Santa Elena de Uairén, uma comerciante desdenhou Delcy. “É a mesma merda”, reclamou a vendedora de roupas.
A ausência de manifestações públicas em defesa de Maduro também é interpretada como sinal de desgaste. “Por que ninguém saiu às ruas para defender?”, questionou um entrevistado. “Porque a gente não votou por ele”, respondeu. Outro fez uma analogia: “Se você compra um produto e ele te corta a mão, você não vai defender. Você devolve”. Apesar da expectativa por mudanças, poucos arriscam prever melhorias imediatas. “Estamos praticamente numa ditadura. Não podemos falar abertamente. É como Cuba”, afirmou a mulher que aguardava para entrar no abrigo da Operação Acolhida.
Para João Carlos Jarochinski Silva, doutor em ciências sociais e pós-doutor pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo/Unicamp), a reação contida dos venezuelanos à prisão de Nicolás Maduro não é surpreendente. Segundo ele, apesar da personalização das críticas no ex-presidente, a revolta de parte da população é direcionada ao regime como um todo, e não apenas a uma figura.
Qualquer sinal de continuidade do chavismo, explica Jarochinski, gera frustração sobretudo entre aqueles que associam o sistema político à deterioração da qualidade de vida e à própria decisão de deixar o país.
O professor universitário observa ainda que, passada a comoção inicial, cresce a desconfiança sobre os rumos do pós-Maduro, já que o debate internacional tem se concentrado na reconstrução da indústria do petróleo, e não em um projeto mais amplo de reconstrução social e institucional da Venezuela.
“O cotidiano dessas pessoas mudou do ponto de vista da repressão, e parece que mudou para pior. Isso vai gerar uma descrença em relação a toda essa ação é um sentimento de frustração bastante significativo”, afirmou. Para ele, a forma unilateral como se deu a prisão de Maduro também incomodou não apenas venezuelanos, mas outros países da América Latina. “Hoje se fala muito de petróleo e pouco de pessoas. Isso cria uma expectativa de reconstrução que talvez não venha a ser atendida”, disse.















