“Vai matar nós tudo”, diz preso em rebelião em Goiás. Veja vídeos

Imagens e áudios mostram gritaria de detentos e barulho de tiros, durante motim nesta sexta-feira (19/2)

atualizado 19/02/2021 19:41

rebelião Goiás

Goiânia – “A cadeia virou. Eles vai (sic) matar nós tudo. Tem um bocado de preso baleado aqui. O baguio (sic) endoidou aqui”. Gritaria de presos do Comando Vermelho, barulho de balas e incêndios tomam conta de imagens de vídeos da rebelião nesta sexta-feira (19/2), dentro da Penitenciária Odenir Guimarães (POG), no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital.

A revolta de presos ocorreu logo após o início de uma operação do Grupo de Operações Penitenciárias Especiais (Gope), a tropa de elite do sistema prisional, dentro da Ala A do maior presídio de Goiás.

 

 

A ação do batalhão teria sido uma retaliação ao assassinato de um vigilante penitenciário temporário e a mulher dele, perto do presídio, na manhã dessa quinta-feira (18/2). Na noite seguinte, os suspeitos foram mortos durante operação policial.

“Barulho de bomba”

Os vídeos da rebelião foram produzidos pelos próprios presos e encaminhados a seus advogados, em meio a um forte barulho de balas e pedido por socorro. “Escuta aí, para você ver, ó! Barulho de bomba. Vem aqui pra porta, doutor”, afirma um preso, em áudio enviado a advogados.

O alvoroço de presos ganhou ainda mais repercussão após eles fazerem uma live durante a rebelião e que chegou a ter quase 10 mil visualizações no Facebook, antes de a transmissão ser barrada pela rede social. “”Nóis (sic) é preso, não é bicho, não”, afirmou um deles, no vídeo.

E não foram só os presos que compartilharam vídeos. Policias aparecem em outro vídeo, enquanto se deslocam para o presídio em um veículo do Gope, e fazem coro em voz alta rezando o Pai Nosso. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém”. Em seguida, bradam um grito de guerra.

Insatisfação

Fontes do sistema prisional disseram que a insatisfação dos presos se intensificou no ano passado, após transferência de presos. Em setembro, 200 detentos de alta periculosidade foram mandados dos presídios de Aparecida de Goiânia, Anápolis e Formosa para a Unidade Prisional Especial de Planaltina de Goiás, no Entorno.

Em dezembro, 1.133 detentos estavam sob custódia na Penitenciária Odenir Guimarães até serem transferidos para outros presídios espalhados por todas as nove regionais da Diretoria-Geral de Administração Penitenciária (DGAP).

Por causa das medidas de isolamento social da pandemia, os presos também passaram a reclamar do fim das visitas de familiares e da comida que, até então, era deixada por seus parentes toda semana no complexo prisional. Eles reclamam da qualidade da refeição servida no local.

O que mais causa revolta nos presos, porém, segundo fontes do sistema prisional e advogados, são “procedimentos violentos de revista, que se realizam rotineiramente nas unidades prisionais”. “Os presos são submetidos a ações vexatórias, tem que ficar praticamente um em cima do outro, no momento da revista”, afirmou uma delas.

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“Denúncias de maus-tratos”

Presidente da Comissão de Segurança Pública e Política Criminal e coordenador da Força-tarefa do Sistema Prisional da Ordem dos Advogados do Brasil em Goiás (OAB-GO) Edemundo Dias de Oliveira disse que “as denúncias de maus-tratos e violação de direitos nos presídios goianos têm aumentado”.

“A gente está tendo muitas reclamações de maus-tratos, de tortura, de violação de direitos, não só no complexo prisional, mas no estado como um todo. Isso tem chegado à OAB de forma crescente. A situação lá está degradante”, afirmou Oliveiras. Ele é ex-secretário estadual de Justiça e ex-presidente da extinta Agência Goiana do Sistema de Execução Penal (Agsep).

As autoridades de Goiás já receberam, no mês passado, um relatório de inspeção realizada pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) e pela Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPEGO).

O documento aponta uma série de problemas nas unidades prisionais do estado, como péssima qualidade da alimentação e da água, assim como uso excessivo da força por parte de servidores do sistema prisional.

Apuração em andamento

Assim como a OAB, a Defensoria Pública e o Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) enviaram equipes ao complexo prisional para acompanhar a situação.

A Diretoria Geral de Administração Penitenciária não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

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