Uma em cada 11 pessoas já tomou remédios tarja preta no Brasil

Para se ter dimensão desse consumo, entre 2015 e o ano passado o Ministério da Saúde distribuiu 18,1 milhões de doses desses medicamentos

Michael Melo/MetrópolesMichael Melo/Metrópoles

atualizado 13/10/2019 18:11

Nos últimos quatro anos, um a cada 11 brasileiros ingeriu ao menos uma dose de medicamentos psicotrópicos —  aqueles usados no tratamento da depressão, da ansiedade e de outros transtornos mentais. O índice mostra como o uso desse tipo de droga tem aumentado no país.

Para se ter uma dimensão desse consumo, entre 2015 e o ano passado o Ministério da Saúde distribuiu 18,1 milhões de doses dos remédios triexifenidil (para tratamento da doença de Parkinson) e clobazam (tranquilizante). Em quatro anos, a alta é de 45,5%, saltando de 3,37 milhões de doses em 2015 para 4,91 milhões de doses no ano passado.

Desde 2015, a escalada de aumento é contínua, com pico em 2017. Os dados fazem parte de um levantamento do Ministério da Saúde, feito a pedido do Metrópoles.

Segundo o governo, em 2015 foram distribuídas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) 3,37 milhões doses (ampolas, comprimidos ou frascos). Em 2016, o índice apresentou um salto de 38,7%: 4,68 milhões de doses. No ano seguinte, nova alta: 9,6%. Em 2017, foram entregues 5,13 milhões de doses. No último ano, houve uma ligeira queda de 4,3%, quando foram fornecidas 4,91 milhões de doses.

Esse número pode ser ainda maior. É de competência de cada município a compra de medicamentos psicotrópicos. Os recursos são repassados do Fundo Nacional de Saúde diretamente ao Fundo de Saúde do Município. Com isso, cada cidade pode ter listas próprias.

A capital federal, por exemplo, tem nas farmácias das unidades básicas de saúde e nas farmácias de alto custo 113 tipos de medicamentos psicotrópicos. Segundo o governo do Distrito Federal, cerca de 47 milhões de unidades são dispensadas anualmente.

No DF, os medicamentos dispensados são aqueles tanto para saúde mental, quanto para outras doenças do sistema nervoso central, a exemplo da epilepsia. No total, são fornecidos 47 milhões de doses anualmente, que podem ser em comprimido, ampola, frasco, cápsula e drágea (conta-se cada unidade da cartela).

Em Goiás, a Secretaria Estadual de Saúde compra com recurso federal medicamentos para atender à Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa Privada de Liberdade (PNAISP). Para este caso específico, o estado adquire os psicotrópicos carbamazepina, cloridrato de amitriptilina, diazepam e haloperidol.

Alerta
Na última quarta-feira (10/10/2019), foi celebrado o Dia Internacional da Saúde Mental. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a quantidade de casos de depressão cresceu 18% em dez anos. Até 2020, esta será a doença mais incapacitante do planeta, segundo a OMS.

O Brasil tem destaque na projeção. O país é campeão em casos de depressão na América Latina. Quase 6% da população, um total de 11,5 milhões de pessoas, sofrem com a doença, segundo dados da OMS.

O psiquiatra Otávio Castello, diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer, explica que o aumento dos medicamentos não está ligado ao abuso. “Existe uma epidemia de doenças mentais. Temos um número crescente de pacientes. Está havendo mais pacientes e mais tratamentos. Os remédios estão chegando às pessoas”, comemora.

Segundo o especialista, as pessoas estão perdendo o preconceito e estão se tratando. “Ninguém falava sobre depressão, por exemplo. Começamos a combater essa visão anterior, apesar de termos avançado menos do que precisamos”, completa.

Castello alerta para o uso indevido dessas drogas: “O risco é usar sem avaliação médica. O problema é o paciente que não vai na consulta e a alta medicação é perigosa. Ele é controlado porque tem risco inerente por trabalhar no sistema nervoso central. A indicação é mais restrita, precisa”, avalia.

Ajuda especializada
Para Michele Müller, pesquisadora, escritora e especialista em neurociência clínica e neuropsicologia educacional, há uma preocupação maior da sociedade com relação à saúde mental. “O aumento nas prescrições deve refletir também um aumento no número da procura da população por especialistas. O que pode ser preocupante é o aumento da busca por ajuda, mas não especializada, pois grande parte dos medicamentos psicotrópicos é receitada por clínicos gerais”, avalia.

O uso de medicamentos também tem outra perspectiva. “Isso também reflete que a conscientização com relação à saúde mental é feita de forma muito limitada, como se tratasse de algo que tem raízes unicamente biológicas, sem levar em consideração os fatores psicossociais e culturais de problemas como depressão e ansiedade”, explica.

Michelle conclui: “Nem sempre temos o controle sobre questões que, muitas vezes, são de origem coletiva, da forma como vivemos enquanto sociedade, cada vez mais individualizada e buscando soluções rápidas para tudo. Então é uma questão de conscientização da sociedade”, acrescenta.

Versão oficial
Em nota, o Ministério da Saúde informou que a assistência farmacêutica é organizada em três componentes. “Cada um dos componentes possui características, forma de organização, financiamento e elenco de medicamentos diferenciados entre si, bem como critérios distintos para o acesso e disponibilização dos medicamentos”, destaca o comunicado.

O texto emenda: “No caso dos psicotrópicos, a responsabilidade pela aquisição e disponibilização é descentralizada (responsabilidade dos estados, Distrito Federal e municípios). Ressalta-se que os entes poderão constituir listas complementares à Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) para ofertar outros remédios, de acordo com as demandas locais”, finaliza a nota.