Mercado de trabalho começa ano pressionado por fim de auxílio e incentivos

Com desemprego em alta, população vulnerável sofre devido à perda de renda em meio à pandemia de coronavírus

atualizado 10/01/2021 18:48

Karen Cristina posa com seis filhos e um cachorroFábio Vieira/Metrópoles

Karen Cristina de Castro, 29, voltava de uma agência da Caixa quando começou a sentir dores no corpo. Grávida de oito meses, ela saiu de casa em uma tarde de novembro de 2020 para tentar receber o pagamento do auxílio emergencial, mas acabou internada em um hospital. Karen deu à luz seu sétimo filho, Lorenzo, que nasceu com apenas 1,6 kg.

Após conceber a criança, ela sabia que a gravidez seria de alto risco, pois é hipertensa, não imaginava que os próximos meses seriam ainda mais difíceis. No momento em que o país entrou em quarentena, Karen entregou o apartamento onde morava, em Interlagos, na zona sul de São Paulo, por não conseguir bancar o aluguel, de R$ 1.500, e voltou a Heliópolis com suas crianças.

Cabeleireira desde os 15, ela teve de vender seus instrumentos de trabalho para alimentar sua família. Em questão de semanas, deixou um condomínio com piscina para dividir dois cômodos com seis crianças e uma na barriga, ao preço de R$ 750 por mês. No entanto, a autônoma tem até 31 de janeiro para quitar dois meses de aluguel.

Ao Metrópoles, Karen diz que teria direito aos R$ 1.200 do auxílio emergencial por ser mãe solo, mas recebeu R$ 600 (R$ 300 a partir de setembro) porque o nome do ex-marido consta no Cadastro Único. O Bolsa Família foi cancelado em janeiro deste ano sem explicações, conta.

“Meu filho nasceu prematuro porque passei fome”

Para piorar, o dinheiro da Renda Básica Emergencial, programa da prefeitura de São Paulo, não foi pago até hoje. Karen se arrisca a fazer doces para vender, mas o dinheiro que chega é pouco. “Meu filho nasceu prematuro porque eu passei fome. Para não deixar as crianças sem comer, eu ficava dois dias sem me alimentar, depois comia por um dia e assim foi [até o dia do parto]. Teve dia que eu abri a geladeira e só encontrei dois ovos para os meninos dividirem entre eles”, afirma, com a voz embargada.

Em meio às dificuldades, a cabeleireira precisou modificar o horário de sono dos filhos para que se adaptassem à nova realidade. “Eles estão acordando às 11h30 para pular o café da manhã e almoçar”, diz Karen. “Tem dias que as crianças falam que vão acessar um site para comprar uma casa para a gente. Eu falo para eles que não é fácil assim, que não tenho dinheiro. Falta dinheiro até para o pão”, completa.

Desde 1º de janeiro, 67,8 milhões de brasileiros já não recebem mais o auxílio emergencial. Em dezembro, o Datafolha revelou que 36% dos beneficiários tinham o subsídio como única fonte de renda. Por outro lado, o país encerrou 2020 com 14 milhões de desempregados, 4 milhões a mais do que em maio, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Auxílio cortado, contas que chegam

Daiana Rodrigues, 36, estava para ser efetivada como atendente de uma cafeteria quando veio a pandemia de coronavírus. Foi demitida em março e desde então envia currículos para empresas que não dão retorno. O único dinheiro que entra é o do marido, que trabalha como camelô na porta de uma estação de trem. Eles vivem com R$ 1.300 por mês para sustentar uma casa com quatro filhos, no Grajaú, zona sul de São Paulo.

Pela primeira vez na vida, Daiana recebeu doação de cestas básicas para preencher os espaços vazios da despensa. Seu Bolsa Família foi cortado antes da pandemia, em fevereiro de 2020, quando atualizou os dados cadastrais. Ela veio de Campinas (SP) para a capital paulista em busca de emprego.

Como mãe, ela diz que tem comido pão no jantar para não ver os filhos comerem menos arroz e feijão. “Antes a gente comprava carne para estocar na geladeira. Agora tem dia que não sobra mais para comermos. Eu ia ao mercado e comprava leite, iogurte e bolacha para as crianças. Ou seja, esse dinheiro [do auxílio] vai fazer muita falta. É um ano que começa com dificuldades, em vez de uma mudança boa só veio a piora.”

Saúde impactada pelo desemprego

O fim do auxílio emergencial e o desemprego também impactam a vida de Ailton Rodrigues. Aos 23 anos, ele iniciará o último semestre de pedagogia em 2021 após ter sido demitido do estágio em uma escola onde trabalhou por mais de um ano. Com os R$ 875 que recebia de salário, conseguia pagar, com seu pai e sua mãe, as contas do lar. Sem nenhum auxílio, porém, ele chegou a questionar se trancaria a faculdade para procurar emprego em outra área.

O pai de Rodrigues, que é operador de empilhadeira, é o único da família que tem registro em carteira. A mãe, costureira, vez ou outra consegue fazer um trabalho, relata ao Metrópoles. Dessa forma, o mês de janeiro começa com aperto financeiro para o morador de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista. A preocupação só não é maior porque ele conquistou uma bolsa integral do Prouni.

A minha situação é desesperadora, porque eu não consigo ajudar a mim mesmo e nem a minha família. Eu sei que não posso desistir [da faculdade] porque fiz uma promessa à minha avó antes de ela falecer. Vou conseguir sustentar a minha família com o emprego que conseguir na minha área.”

Enquanto o emprego dos sonhos não vem, Rodrigues tem experimentado uma piora na saúde mental, só que atualmente não consegue bancar uma consulta com psicólogo. “Com a pandemia vieram crises de ansiedade e existenciais. Penso na faculdade, no desemprego e na minha família e bate um desespero. Mas ainda há esperança, acho que esse caos acaba até o fim de 2021”, finaliza.

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