Coronavírus: indígenas se fecham e criticam medidas do governo

Entidades que reúnem indígenas estão alarmadas com a pandemia de coronavírus, mas portaria da Funai deixou isolados mais vulneráveis, alegam

atualizado 22/03/2020 9:58

A nova “epidemia dos brancos” está preocupando povos indígenas do país inteiro, que estão fechando aldeias a visitas e cancelando eventos. Mesmo assim, uma indígena pataxó na Bahia se tornou caso suspeito e entidades de defesa dos povos originários alertam para medidas tomadas pelo governo, que podem expor índios isolados a contatos que para eles podem ser ainda mais perigosos.

O primeiro caso suspeito de infecção pelo novo coronavírus entre indígenas é acompanhado pelas autoridades na reserva pataxó Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia. Lá, uma indígena está isolada aguardando o resultado do exame para Covid-19. Ela trabalha como camareira em um resort da região e teve contato com visitantes estrangeiros antes de começar a apresentar sintomas como febre e tosse.

Para evitar mais casos como esses, o fechamento das aldeias é tanto determinação do governo quanto vontade dos indígenas. Os ianomâmi, etnia com mais de 15 mil representantes que possuem reserva na divisa do Brasil com a Venezuela, estão fazendo esforços para espalhar a informação entre os povos.

Em comunicado da associação Hutukara, que reúne indígenas dessa etnia, o pedido é para que ninguém deixe a comunidade ou receba visita. “Essa epidemia saiu do controle. Nossos antepassados morreram de epidemias dos não indígenas. Não vamos deixar acontecer outra vez”, diz o texto.

O comunicado ainda faz um chamado à proteção do meio ambiente como forma de evitar problemas como a pandemia de coronavírus. “Vocês estão com medo dessa epidemia que criaram porque insistem em retirar minério da terra. Vocês comem a terra com suas máquinas e destroem a vida. Vamos continuar alertando para que parem com o desmatamento, o garimpo e a mineração que não cessa de produzir doenças.”

A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) também suspendeu todas as atividades e eventos e todas as viagens dos membros.

A portaria da discórdia
Na portaria que determinou normas para o enfrentamento do coronavírus entre indígenas, a Fundação Nacional do Índio (Funai) prevê a autorização para as 39 coordenações regionais contatarem as tribos isoladas brasileiras “caso a atividade seja essencial à sobrevivência do grupo”. Até a publicação da norma, apenas uma coordenação específica dos isolados poderia autorizar contatos.

A revogação da norma foi pedida pelo Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos do governo federal. Segundo a entidade, “as coordenações regionais não necessariamente possuem corpo técnico com a habilitação pericial adequada para lidar com as especificidades das políticas públicas dos povos em isolamento”.

Os próprios indígenas também estão alarmados. “Estamos muito vulneráveis”, diz o advogado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Dinamam Tuxá. “As equipes de saúde não têm máscaras, macacão e os insumos necessários para impedir que o coronavírus se propague em área indígena”, avalia.

O Metrópoles questionou a Funai sobre os pedidos de revisão da portaria, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto. Em nota publicada em seu site, o órgão garantiu que o contato com os isolados só ocorrerá se for “estritamente essencial à sobrevivência do grupo”.

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