Após desmaio, jovem perde a memória e luta para criar novas lembranças

Os exames de Pedro Henrique apontam para uma saúde normal. Mas, após um desmaio, o paulista acordou sem lembrar de detalhes da sua vida

atualizado 19/03/2019 12:44

Arquivo Pessoal

Pedro Henrique de Oliveira tem 20 anos e vivia uma vida comum, até sofrer um desmaio em meados de janeiro, indo parar no hospital e acordando sem saber seu nome ou onde estava. O jovem, que trabalha como repositor em uma empresa de embalagens e mora na zona leste de São Paulo, acabou perdendo a memória de sua vida inteira após passar mal durante o expediente, chegando até a vomitar sangue.

Desde então, Pedro tem tido ajuda de familiares, medicamentos e tratamento psicológico para relembrar detalhes de sua vida. Para ir e voltar do trabalho, por exemplo, ele busca estar sempre acompanhado. Agora, ele iniciará um tratamento psicológico para evitar uma nova perda. Pedro, que está sempre usando as redes sociais para registrar lembranças e atualizar seus amigos sobre sua saúde, ficou mais conhecido após um tuíte para a apresentadora Maísa, no qual afirmava ter tido o melhor dia da vida quando a conheceu. Porém, não conseguia se lembrar de nada.

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Após o ocorrido, ele passou a ter dificuldades na comunicação e na relação com amigos, dos quais não se recorda. Não apenas isso: ele conta que sua personalidade mudou bastante em comparação ao passado. “Não gosto mais dos filmes na minha lista da Netflix, nem dos livros na minha estante e das músicas que escutava”, diz ele. “Também sabia falar inglês fluente, conversava, e agora não lembro quase nada.”

Pedro ainda revelou que o mesmo acidente aconteceu quando era criança, ao bater a cabeça em um extintor de incêndio. Na época, o jovem teve mais facilidade em se comunicar com os outros e, dessa forma, fez novos amigos e lembranças.

“As pessoas vão me contanto as histórias da minha vida e eu fico pensando se é verdade ou mentira. Como fica bem confuso, sempre acabo perguntando para minha mãe”, conta ele.

O principal questionamento dos profissionais sobre o caso é: todos os exames de Pedro apontam para uma saúde normal; nenhum tumor ou traumatismo craniano foi identificado. No entanto, existe uma possibilidade maior de ele ter perdido a memória em decorrência de problemas emocionais, de causa psiquiátrica. O médico responsável pelo acompanhamento de Pedro, neurologista que preferiu não ser identificado, revelou que várias doenças podem ocasionar a perda.

Em pessoas mais jovens, o mais comum é a depressão, etilismo crônico e hipotiroidismo. Além disso, falta de sono e alimentação desequilibrada, com carência de nutrientes como a vitamina B12 e ácido fólico, podem levar a essa perda. Em pessoas mais velhas, é comum a perda de memória ocorrer por fatores como o traumatismo crânio-encefálico, a meningoencefalites, um acidente vascular cerebral (AVC) ou por outras doenças degenerativas do sistema nervoso central, tais como Alzheimer, demência vascular e a doença de Parkinson.

Felizmente, é possível recuperar a memória mesmo após uma perda, dependendo do que a causou. “No caso de depressão, de dormir mal e de uma alimentação incorreta, um tratamento eficaz e correto pode melhorar totalmente a perda de memória. Já nas doenças degenerativas, a perda é geralmente lenta e progressivamente contínua, mesmo com uso de remédios”, informa o neurologista.

O médico de Pedro ainda falou de diversos medicamentos e tratamentos que podem ser usados na recuperação da memória, como suplementos nutricionais ricos em ômega 3, polivitamínicos, medicamento fitoterápico, terapia cognitivo comportamental, psicoterapia e jogos de memória. No entanto, ele adverte que os pilares para o tratamento e a prevenção da perda de memória são “uma boa e saudável nutrição, evitar álcool, fumo e drogas, prática de atividade esportiva com regularidade, dormir bem, fazer atividades prazerosas, cultivar boas amizades e desenvolver a espiritualidade”.

Tratamentos
O doutor Marcelo Kawano, neurologista especializado em neurocognição, área da neurologia que estuda todos os processos cerebrais envolvidos na memória, raciocínio, linguagem e aprendizado, ressaltou ao Metrópoles que não existem remédios específicos para memória, mas sim tratamentos para doenças ou patologias causadoras de problemas cognitivos. “Se um paciente tem um quadro depressivo importante e isso está acarretando em uma falha de memória no cérebro, o tratamento dele será um antidepressivo”, explica ele.

O déficit de vitaminas pode ocasionar em uma perda de memória, afirma Marcelo. Nesses casos, o tratamento correto seria a reposição da vitamina que está em falta. O especialista ainda chama atenção para o estudo e a prática de atividades físicas como forma de prevenção de processos demenciais em qualquer situação que venha a gerar a perda de memória. “As atividades físicas ajudam o cérebro a ser mais resistente. O estudo é importante porque ele reforça o conteúdo, expande o que nós chamamos de reserva cognitiva”, diz o neurologista.

E quanto aos sintomas? O doutor conta que quem está por perto do paciente pode notar alguns, como fazer as mesmas perguntas várias vezes ao dia, contar uma história repetidamente como se não tivesse contado antes, deixar de comparecer a compromissos marcados pois não se lembra deles ou até mesmo pagar uma conta e esquecer que pagou. “O esquecimento patológico é caracterizado principalmente por um transtorno nas atividades do dia a dia. É uma dificuldade de memória que leva o comprometimento das atividades diárias de um indivíduo e impede a realização dos principais compromissos e atividades”, revela Marcelo.

É importante lembrar: o tratamento sempre irá depender do que ocasionou a perda de memória. No caso de um problema psiquiátrico, como a depressão, o tratamento costuma ter um prognóstico melhor. “Seria um tratamento multiprofissional, com o neurologista cognitivo, um psiquiatra e um psicólogo”, diz Marcelo. Ainda assim, não existe um prazo para a melhora nas causas reversíveis. “O principal para impedir outra ocorrência, principalmente se tratando de um quadro reversível, é procurar um profissional adequado, que saiba identificar e manejar esses sintomas, descobrir a causa”, relata o profissional.

“Uma boa investigação, que descubra a causa, junto com um bom tratamento, pode prevenir. Mas a prevenção primária vem da alimentação saudável e da prática de atividades esportivas”

Lidar com a perda de memória não tem sido fácil para Pedro. Ele conta que, apesar de estar mais tranquilo e comunicativo agora, dois meses após o incidente, se isolou bastante de colegas e familiares no início do tratamento. “As pessoas me chamavam para sair e eu tinha medo, receio das pessoas me conhecerem melhor do que eu, de me contarem uma história e eu não lembrar de nada. E eles tinham medo de eu não gostar deles, pois minha personalidade está diferente do que era antes”, relata o jovem. Atualmente, Pedro vem interagindo com os amigos todos os dias, a fim de criar novas lembranças.

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