Dom João Evangelista Martins Terra (foto em destaque), bispo auxiliar emérito de Brasília, fez uma afiada crítica sobre a prisão do bispo de Formosa (GO), dom José Ronaldo, acusado de comandar uma organização criminosa suspeita de desvios de taxas, dízimos e doações dos fiéis de paróquias do Entorno. “Justiça ignorante e irresponsável”, disse o religioso. A carta foi enviada para outros párocos à época da detenção, em março.

Pela primeira vez, na história do Brasil e talvez na história universal, um membro do Colégio Apostólico e toda a Cúria Diocesana é violentamente agredida e aprisionada por uma Justiça ignorante e irresponsável"
Trecho da carta de dom João Evangelista

No total, nove pessoas foram presas na Operação Caifás, deflagrada em 19 de março. Os desvios vêm sendo feitos desde 2015, conforme apontam as investigações, e são calculados em mais de R$ 2 milhões. Teriam sido utilizados, segundo interceptações telefônicas, para comprar bens, como fazenda de gado e casas lotéricas. O bispo de Formosa e outro seis religiosos foram soltos em 17 de abril.

Segundo dom João Evangelista, tanto o bispo quanto a Cúria diocesana não cometeram nenhum delito sob a luz do código jurídico eclesiástico. “Todas as ações e atuações do bispo são ilibadas, estão respaldadas pela legislatura canônica e são absolutamente honestas e legais”, explicou.

No documento de 10 páginas, intitulado Uma Nova Questão Religiosa no Brasil, o bispo tece o perfil sobre dom José Ronaldo, além dele mesmo e do direito na Igreja Católica. A veracidade do artigo foi confirmada pelo reitor do Instituto Bíblico de Brasília, padre Clóvis.

De acordo com dom João Evangelista, o corpo jurídico da religião é dividido em sete livros. “O regime da Diocese não é democrático. É teocrático. O bispo diocesano é o príncipe absoluto. Só ele tem o poder absoluto de: ensinar, santificar e governar”, resumiu, em referência ao Livro II.

O bispo auxiliar emérito de Brasília ainda afirmou que “leigos facultosos” e “alguns párocos irresponsáveis” depredaram a Diocese, “comprando juízes e policiais pagos nababescamente para corromper secretários venais, orientando-os a manipular diariamente, durante dois anos, os documentos da Cúria Diocesana, e ensinando as tricas e chicanas judiciais para caluniar e denegrir o bispo e os padres honestos”.

Confira o documento na íntegra:

Uma Nova Questão Religiosa No Brasil: declaração de Dom João Evangelista Martins Terra by Metropoles on Scribd

 

Por fim, dom João Evangelista lembrou que os responsáveis pela prisão do bispo de Formosa estão excomungados. “Terminando este artigo, quero recordar aos sacerdotes, leigos, juristas e policiais responsáveis (irresponsáveis) pela prisão do Bispo de Formosa e pela profanação da Semana Santa, aviltando a imagem da Igreja Católica, que estão automaticamente (latae sententiae) excomungados”.

O ato também foi estendido para “todos os membros de suas famílias, esposas e filhos, na esperança de que se arrependam, se convertam e reparem suas falcatruas”. Segundo o religioso, assim eles poderão ter uma “Santa Páscoa, em vista da vida eterna. Amém”.

Ministério Público
Sobre a carta de dom João Evangelista, o promotor do Ministério Público de Goiás (MPGO) responsável pelas investigações da Operação Caifás, Douglas Chegury, disse acreditar que as declarações não representam o entendimento tampouco o posicionamento oficial da Santa Sé.

“Tão somente destilam ódio infundado e amargura frustrada de alguém que, apesar da larga e nonagenária experiência eclesiástica declarada, revela que não foi capaz de compreender na sua integralidade a mensagem de paz e amor de nosso senhor Jesus Cristo”, finalizou.