Quando a idade da criança vira um obstáculo na hora da adoção

No Dia Nacional da Adoção, celebrado nesta terça (25/5), 60% das crianças e adolescentes em filas no Brasil têm entre 9 e 17 anos

atualizado 25/05/2021 15:08

Francisco Borges, pai de dois filhos adotivos e um filho biológicoArquivo Pessoal

São Paulo – Francisco Borges conseguiu adotar, em março de 2020, na semana que antecedeu o início da pandemia de Covid-19, os irmãos Gabriel, 13 anos, e Maikon, 11 anos. A concretização do processo que se estendeu por 18 meses teve um motivo ainda mais especial.

O empresário, de 43 anos, foi adotado por um casal aos 6 anos de idade, em São Paulo. Abandonado sem nome, documento ou referência pela mãe biológica, acabou acolhido. Porém, Borges teve pouco tempo para desfrutar do amor dos pais adotivos.

A mãe faleceu quando ele tinha 12 anos; o pai partiu três anos mais tarde. Ele viveu com uma tia materna até alcançar a maioridade. Nada tirou da cabeça dele a ideia de colocar em prática o plano que o tirou da rejeição.

Gabriel e Maikon estão entre as 1.291 crianças e adolescentes adotadas no estado de São Paulo em 2020.

Eles fazem parte da faixa etária dos preteridos por pretendentes à adoção – segundo o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), programa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 60% dos meninos e meninas disponíveis para amparo legal têm idade entre 9 e 17 anos.

Borges era pai de Victor, 13 anos, seu primeiro e único filho biológico. “Se uma pessoa vive em média 80 anos, é no mínimo raso o pensamento que uma criança com 10 ou 15 anos não pode ressignificar a sua vida”, afirma ele, que é pai-solo e vive em São Paulo com as crianças.

Data de reflexão

Nesta terça-feira (25/5), é celebrado o Dia Nacional da Adoção, data que convida a refletir sobre a importância de adotar.

De acordo com o SNA, 4.963 crianças vivem a expectativa de ter pais em todo o Brasil. O estado de São Paulo é responsável por 20% desse total. Há 32.863 mil homens e mulheres dispostos ao amparo legal. Entretanto, menos de 2% querem uma criança com mais de 10 anos.

De olho nessas estatísticas, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) realiza, desde 2017, a campanha Adote um Boa-Noite. O objetivo é conscientizar a população sobre a adoção tardia de crianças com mais de 8 anos e deficientes.

Para negros como Borges e seus filhos, a espera é ainda maior, pois 64% das crianças e adolescentes na fila da adoção têm a pele preta ou parda.

A pandemia fez o número de adoções despencar 43% no ano passado em relação a 2019. No primeiro trimestre deste ano, 319 crianças e adolescentes ganharam novos pais.

Os processos de adoção pelas varas de Infância e da Adolescência seguiram a realidade do modelo virtual, tão aplicado em diversas frentes de trabalho. Agora, a maior parte dos trâmites é feito por videoconferência – exceto os casos que necessitam de análises mais minuciosas.

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Crianças a partir de 9 anos esperam mais

O juiz assessor da Presidência do TJSP, Iberê de Castro Dias, acreditou que o novo coronavírus iria zerar a procura por crianças no estado. Ele espera, porém, que os pretendentes olhem para aqueles que já estão mais crescidos.

“Existem dois pontos que impedem que isso aconteça: entronizar que a adoção é sempre de crianças pequenas. É algo quase automático, e o sonho natural de querer ser pais de crianças pequenas”, diz Castro Dias.

Segundo Dias, ninguém quer recriminar quem olha dessa forma. “Não é antiético, ilegal ou imoral. Mas é interessante mostrar que esses pais poderiam criar uma relação afetiva com uma criança um pouco maior”, completa.

Segundo ele, anualmente, uma média de 600 jovens completam 18 anos e passam a ser responsáveis por si no estado de São Paulo.

O período médio de adoção no país, desde a entrada do pedido, à realização de testes e envio de documentos, até a conclusão do procedimento, leva 18 meses. Foi esse o tempo que Borges gastou para poder ir para casa com Gabriel e Maikon.

Para ele, os primeiros meses foram de adaptação. Mas garante que tudo é tão compensador ao ponto de compartilhar suas experiências como pai-solo nas redes sociais.

“Eu acredito que a adoção é um ato de responsabilidade social, antes mesmo de ser um ato de amor. Essas crianças só querem ser amadas e ter seus direitos garantidos. Todas as pessoas têm esse direito.”

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