
Promessas de Alcolumbre geram desconfiança na oposição e no governo
Presidente do Senado acelera articulações por terceiro mandato e tenta frear avanço de nomes da oposição

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), intensificou esta semana as conversas com governistas e oposicionistas para ampliar o apoio à sua reeleição, mas enfrenta desconfiança dos dois lados.
A discussão de um possível perdão ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) incomoda aliados do governo, enquanto integrantes da direita cobram resultados antes de decidir se apoiarão a permanência do amapaense no comando da Casa.
Apesar das resistências, Alcolumbre avalia que já teria votos suficientes para vencer a eleição de 1º de fevereiro de 2027. Segundo interlocutores, ele conta com dissidências da oposição e tem recebido sinalizações de apoio nas conversas com os atuais senadores e os eleitos neste ano.
O senador pretende avançar nas negociações com o PL nas próximas semanas, enquanto aliados esperam que outras siglas anunciem adesão à sua candidatura. A aposta é ampliar uma base que já reúne partidos do governo e de fora dele, sem depender de um entendimento com toda a oposição.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesMDB, PSD e PT já sinalizaram respaldo à recondução de Alcolumbre. Na terça-feira (27/10), União Brasil e PP também anunciaram apoio. As cinco bancadas somarão 33 senadores em 2027, oito a menos que os 41 necessários para eleger o presidente da Casa.
PL terá a maior bancada com 29 senadores- 19 a mais do que a 2ª maior, que é a do PT
- PL: 29
- PT: 10
- MDB: 8
- PP: 6
- Republicanos: 5
- União Brasil: 5
- PSB: 4
- PSD: 4
- Novo: 3
- Podemos: 2
- PSDB: 2
- PDT: 1
- Rede: 1
- Sem partido: 1
Voto secreto
A confiança do amapaense leva em conta votos além desse grupo. As manifestações partidárias, porém, não garantem o apoio de todos os integrantes das bancadas: a escolha é individual e secreta, e há senadores dispostos a contrariar a orientação de suas legendas.
O PL terá a maior bancada, com 29 dos 81 parlamentares, e deve se reunir na próxima quarta-feira (4/11) para decidir se lançará o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), à presidência do Senado. Ele coordenou a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e é um dos nomes considerados para enfrentar Alcolumbre, assim como a senadora Tereza Cristina (PP-MS).
Parte da oposição defende que os dois busquem um entendimento para evitar a divisão dos votos. O apoio do PP a Alcolumbre dificulta a construção de uma candidatura de Tereza, embora não impeça que ela entre na disputa.
Ao mesmo tempo que procura esses parlamentares, Alcolumbre pretende voltar a se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para discutir a relação com o Legislativo depois das eleições. O senador defende que as negociações se concentrem na agenda do Legislativo, com menos confrontos entre o governo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Lula
Lula e Alcolumbre conversaram por telefone na noite do segundo turno, após a vitória do petista sobre Flávio. Segundo relatos ouvidos pelo Metrópoles, o presidente chamou o senador de “meu amigo e irmão”. Aliados interpretaram a troca de manifestações de apoio como um sinal de respaldo à reeleição do amapaense.
Na ligação, Davi Alcolumbre pediu a Lula que adotasse um discurso de pacificação. O senador também defendeu essa posição ao se pronunciar ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre as tarefas do presidente reeleito.
“Unir o Brasil, pacificar o Brasil, fortalecer as instituições democráticas, porque a ninguém interessa o enfraquecimento das instituições”, afirmou.
Jair Bolsonaro
É sob esse argumento que Alcolumbre discute um acordo para beneficiar Jair Bolsonaro com anistia ou indulto. Segundo interlocutores, as conversas começaram antes das eleições e envolvem um grupo restrito de parlamentares, integrantes do governo e ministros do Supremo. A articulação também busca esvaziar a pressão por impeachment de membros do STF.
Ainda não há uma proposta definida nem acordo entre os envolvidos. A falta de uma solução concreta alimenta a desconfiança de integrantes da direita, que questionam por que Alcolumbre não avançou com a anistia nos últimos dois anos e cobram uma conclusão antes da eleição para o comando do Senado.
Senadores do PL afirmam, reservadamente, que a negociação agrada à legenda, mas só poderia se converter em votos se produzisse resultados ainda neste ano. Uma promessa de perdão para depois da escolha do presidente da Casa, dizem, não seria suficiente.
Entre governistas, a resistência é ao próprio benefício a Bolsonaro. Parlamentares contrários ao perdão relatam ter sido surpreendidos pelas notícias sobre as conversas, o que impõe a Alcolumbre a dificuldade de negociar com a direita sem afastar aliados que já apoiam sua recondução.
Uma das possibilidades consideradas é o indulto, que poderia ser concedido por Lula sem aprovação do Congresso. Aliados do presidente do Senado avaliam que essa é a construção mais difícil, diante das manifestações do petista contrárias a beneficiar o antecessor, mas afirmam que ela não está completamente descartada.
A anistia, por sua vez, exigiria uma lei aprovada pela Câmara e pelo Senado, que seguiria para sanção ou veto presidencial. As duas alternativas poderiam ser questionadas no STF, razão pela qual interlocutores de Alcolumbre defendem que a negociação também inclua o diálogo com ministros do Supremo.
STF
A aproximação com a oposição, contudo, não se estende aos pedidos de impeachment de ministros, especialmente o de Alexandre de Moraes. Mesmo pessoas próximas ao senador afirmam que ele não pretende levar essa pauta adiante.
Davi Alcolumbre tem sinalizado disposição para discutir outras mudanças nas regras de composição do Supremo, como uma proposta de emenda à Constituição que aumente a idade mínima para novos ministros. Ao exigir que os indicados ingressem mais velhos, a mudança reduziria o tempo máximo de permanência deles no cargo.
