Projeto do ator Marcos Winter quer criar “Luz de Obrigado” para motoristas
Projeto prevê sinal luminoso azul para estimular gentileza no trânsito e reduzir agressividade entre motoristas
atualizado
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O ator Marcos Winter, conhecido por seu papel como Jove na primeira versão da novela Pantanal, da Rede Manchete, e o administrador Thiago Paschoa têm um projeto que pretende aumentar o grau de cordialidade nas ruas brasileiras, hoje marcadas por buzinas, xingamentos, fechadas, disputas por espaço e impaciência. A ideia deles é a criação da chamada “Luz de Obrigado”.
Nas grandes cidades brasileiras, a convivência no trânsito tem sido cada vez mais marcada pela agressividade. Nesse contexto, projetos, como o da dupla, que buscam transformar gestos de cordialidade em linguagem universal, começam a ganhar espaço no debate sobre segurança viária.
Conforme a proposta de Winter e Paschoa, um dispositivo luminoso azul, que pode ser instalado na traseira dos veículos, permite que motoristas agradeçam ou peçam desculpas no trânsito de forma padronizada.
Embora o Brasil não tenha um indicador oficial específico para medir a “gentileza no trânsito”, estudos do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), como o Indicador Nacional do Desempenho da Segurança Viária e o Estudo Naturalístico de Direção Brasileiro (NDS-BR), apontam que o comportamento humano segue entre os principais fatores associados à quantidade de sinistros no país.
O cenário também aparece em pesquisas de percepção social. Um levantamento realizado pela plataforma Preply, em maio de 2024, mostrou que 73,6% dos brasileiros afirmam já ter presenciado agressões verbais no trânsito, enquanto quase metade relatou ter visto agressões físicas envolvendo motoristas.
Idealizada por Winter em 2004, a “Luz de Obrigado” recebeu, em janeiro deste ano, uma moção de apoio oficial da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet).
A entidade reconheceu a proposta como ferramenta eficaz no enfrentamento do chamado road rage – conjunto de comportamentos agressivos no trânsito associados ao estresse e à impulsividade.
De acordo com os sócios, o texto de um projeto de lei já está nas mãos da Abramet, que deve encaminhá-lo à Frente Parlamentar de Medicina para protocolação. O projeto também foi encaminhado ao então ministro dos Transportes, Renan Filho.
Ideia nasceu há mais de duas décadas
A proposta começou a ser desenhada em 2004, quando Winter gravava um projeto experimental em congestionamentos de São Paulo. “Eu percebi que existia gentileza no trânsito. Muitas pessoas eram gentis umas com as outras. Mas elas não tinham como retribuir essa gentileza”, contou o ator ao Metrópoles.
O primeiro protótipo foi instalado em um Fusca amarelo de 1977 herdado do pai do ator: um LED azul acionado manualmente no painel do carro.
A virada veio quando Winter conheceu Thiago Paschoa, também ator e microempreendedor, com passagem pela indústria automotiva em São Bernardo do Campo. A partir daí, o projeto ganhou estrutura técnica e estudos de viabilidade regulatória.
Segundo Paschoa, a proposta se apoia na Resolução 970/2022 do Contran, que permite a incorporação de novas tecnologias veiculares desde que elas não interfiram nas sinalizações obrigatórias do automóvel.
Para ele, o projeto também busca preencher uma lacuna comportamental ainda não contemplada pelo Código de Trânsito Brasileiro, que não prevê mecanismos práticos de comunicação voltados à cordialidade entre motoristas.
“Desde o início, ficou claro que era uma solução simples, sem necessidade de grandes mudanças estruturais — é um ajuste de comportamento”, afirma. “Conversei com engenheiros e profissionais de inovação de grandes montadoras. Ouvi deles, com clareza, que era tecnicamente viável.”
“O futuro chegou sem algo essencial”
Além do dispositivo físico, o projeto prevê o desenvolvimento de um aplicativo capaz de registrar o uso da “Luz de Obrigado”, mapear regiões com maior incidência de conflitos e, com o tempo, correlacionar esses dados com indicadores de acidentes e violência no trânsito, gerando métricas reais de impacto social.
Os idealizadores defendem que os veículos evoluíram tecnologicamente, mas deixaram de lado formas básicas de interação humana. “Para mim, a Luz de Obrigado não é futuro — está atrasada. E precisa existir para se tornar algo natural nas próximas gerações”, diz Paschoa.
“Hoje a gente vê carros cada vez mais tecnológicos, com câmera de ré, câmera 360 graus, sensores de tudo quanto é tipo. Mas, até hoje, não existe no mundo um ato humano de agradecimento dentro do carro, um diálogo simples com outro motorista”, completa Winter.
Desafios estratégicos
Segundo a dupla, o principal desafio agora não é técnico, mas estratégico: convencer montadoras e órgãos públicos a adotarem a proposta em larga escala.
“O que falta para isso acontecer, na verdade, é a coragem de uma montadora, de uma empresa, assumir o compromisso de mudar um paradigma no trânsito. Ter a coragem de lançar algo exclusivo para isso, sem pensar só no lucro imediato, em vendas ou na parte financeira, mas olhando para o lado humano”, ressalta Winter.
Paschoa defende que o projeto deve ser visto para além da criação de um novo acessório automotivo por ser um recurso capaz de estimular mudanças de comportamento.
“Eu enxergo como uma ferramenta de transformação de comportamento que pode ser protagonizada por uma empresa — e essa empresa será lembrada para sempre como pioneira. É sobre humanizar a tecnologia e melhorar a forma como as pessoas se relacionam no trânsito”, argumenta.






