Proibidas por governo, bets geraram R$ 19 bilhões em arrecadação desde 2025
Receita com apostas on-line, as chamadas bets, cresce desde 2025, mas governo impôs restrições ao setor diante de impactos sociais

Apesar de proibir as bets por meio de medida provisória (MP) editada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última sexta-feira (25/9), o governo federal arrecadou R$ 18,9 bilhões com atividades de exploração de jogos de azar e apostas, desde 2025, segundo dados da Receita Federal.
No ano passado, foram arrecadados R$ 9 bilhões com o setor e, de janeiro a agosto de 2026, o governo já angariou R$ 9,9 bilhões.
As plataformas de jogo on-line, as chamadas bets, foram legalizadas em 2018, no governo do ex-presidente Michel Temer, mas só foram regulamentadas no fim de 2023.
Apenas em 2025, quando entrou em vigor a chamada Lei das Bets, sancionada pelo presidente Lula, as empresas de apostas esportivas começaram a pagar impostos e taxas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAlém disso, o governo já arrecadou R$ 2,5 bilhões com o pagamento de licenças para que as bets possam operar no país.
Para atuar legalmente, as empresas devem cumprir diversas exigências. Um desses requisitos é o pagamento de outorga no valor de R$ 30 milhões, válida por 5 anos. Isso garante que a empresa pode operar com três marcas; caso deseje mais nomes, é necessário o pagamento de R$ 5 milhões.
De acordo com o Ministério da Fazenda, ao todo, 89 empresas pagaram por suas outorgas para operarem de forma legalizada no país.

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No entanto, a decisão de Lula de restringir o setor, segundo o Palácio do Planalto, considera não apenas os efeitos econômicos, mas também o custo político e social associado ao tema. Desde o começo do mês, o presidente tem elevado o tom contra esse segmento, ao mencionar sua pretensão de acabar com as bets.
“Tem muita gente doente por causa de jogo, tem muita gente endividada. E eu vou dizer uma coisa para vocês: eu vou acabar com as bets. O dinheiro do jogo é para comprar comida para as crianças. Se tiver vontade de jogar, compre um litro de leite para sua casa, um pão, compre mais comida para sua casa. Não é correto a gente gastar o que não tem para tentar ganhar o que não existe”, afirmou na sexta (25/9), durante agenda de campanha em Recife (PE).
Lula quer acabar com as bets
- Às vésperas da eleição, Lula elevou o tom contra o setor de bets e anunciou uma MP para restringir essas operações.
- De acordo com ele, as bets destroem a saúde mental e financeira da população, que se vê cada vez mais endividada em consequência do jogo.
- Segundo uma pesquisa da Atlas/Bloomberg, 75% da população é a favor de restringir as bets no Brasil.
- O presidente recebeu, no começo do mês, membros da sociedade civil para uma conversa sobre o tema, entre eles banqueiros; representantes do setor de apostas, todavia, não foram ouvidos por Lula.
- A intenção do presidente ao acabar com as bets, segundo o governo, é preservar a população e proteger o consumidor de possíveis vícios.
Risco de judicialização
O setor afirmou que vai recorrer na Justiça sobre a decisão de Lula. Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), Carlos Lima, essa é uma ruptura abrupta para o setor, que já se prepara para as judicializações.
Ele explicou ao Metrópoles que a medida do governo traz insegurança jurídica para os empresários que investiram no país, o que, de acordo com ele, favorece apenas o mercado irregular.
Um dos principais questionamentos do setor sobre o tema é o risco de migração de usuários para plataformas ilegais. De acordo com Lima, antes da regulamentação, o mercado brasileiro de apostas era dominado por operadores estrangeiros sem autorização, o que dificultava a fiscalização e impedia a arrecadação de tributos.
Um estudo conduzido pela LCA Consultoria Econômica, a pedido do IBJR, mostra que o mercado ilegal representa entre 38% e 44% do mercado total de bets.
De acordo com o levantamento, o setor movimenta entre R$ 87 bilhões e R$ 98 bilhões por ano. Entretanto, desse total, um valor entre R$ 33 bilhões e R$ 43 bilhões é movimentado pelo mercado clandestino.
O presidente do IBJR explicou que a proibição desse segmento, mesmo que parcial, deve empurrar todo o mercado para clandestinidade, em que não existem regras definidas. O líder da entidade acredita que esse movimento causará prejuízos ao consumidor, que atualmente é protegido pelas normas do Ministério da Justiça (MJ) e da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).
“Fora do ambiente regulado, esses operadores não estão submetidos às mesmas exigências de segurança, integridade, prevenção à lavagem de dinheiro, proteção ao consumidor e jogo responsável, além de não recolherem os tributos incidentes sobre a atividade”, afirma o estudo da LCA.
Meta fiscal
Outra questão que tem sido levantada por integrantes do setor é a arrecadação do governo e os rumos da política fiscal. Isso porque o governo precisa das receitas do setor para fechar as contas de 2026 e 2027, já que esses valores já estão previstos no Orçamento.
Para este ano, a meta fiscal do governo é de superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a cerca de R$ 34 bilhões. Contudo, o governo pode usar a banda de tolerância de 0,25 p.p. para cima ou para baixo e alcançar o piso da meta, de déficit zero.
No ano que vem, porém, a meta é de superávit de 0,50% do PIB. Assim, mesmo com o intervalo de tolerância, o governo terá de apresentar superávit, e as receitas com bets já entraram na conta para que isso aconteça.



